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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma lésbica passada dos cornos e meio anti-social

40 horas e 1 vida

Perguntou-me, desorientado, por que raios não queria eu fazer 40 horas semanais. 

"Não precisas de mais dinheiro?", perguntou-me. Respondi-lhe que não, que neste momento estes trocos chegavam-me. "Deves estar de bem com a vida", disse-me com desdém.

 

- Não estou, pelo contrário. Por isso é que não é de mais dinheiro que eu preciso.

- Então é de quê?

- É de tempo. 

I'd rather fight than just fake it (cause I like it rough)

Não é que sejas inesquecível mas como é que se esquece que o meu maior amor foi uma fraude?

(E como é que se perdoa alguém que conseguiu transformar o que de melhor havia em mim em vergonha e náuseas?)

 

Continuo a ser emocionalmente diplomática mas há acordos de paz que só se alcançam através de palavras duras portanto vai-te foder. É frustrante que me tenhas tirado 10 anos da minha vida portanto imagino que seja pior teres de conviver contigo há (quase) 29 anos. E não te desejo mal, não: desejo-te autenticidade porque se não é para seres o que dizes ser ou queres ser, então não vales nada. E a forma como eu amo as pessoas que passaram, passam ou passarão na minha vida vale tudo. Amei-te (mas vai-te foder!). 

Carta aberta às pessoas que vão ao cinema

Caras abomináveis pessoas,

 

Não vos escrevo na esperança (que é vã) de que, por lerem estas palavras, se aprendam a comportar de forma mais humana; escrevo-vos para que saibam que vos considero uma amostra do que é a humanidade actualmente: e abomino o que vejo.

 

Se a entrada está fechada, não a contornem e não tentem entrar por outros lados. Especialmente se o vosso filme só começa dentro de 42 minutos. Sei lá, só assim por acaso, já pensaram que há um motivo para ela estar fechada? É que também não me parece que seja a primeira vez que vão ao cinema e, como devem saber, alguém (eu) tem de rasgar o bilhete, permitir a entrada e indicar-vos a sala para onde se devem dirigir. É só um conselho. Prometo-vos que estarei à entrada a horas decentes para vos deixar entrar, a sério, sou super apaixonada por cinema e não gosto de perder um segundo (até os créditos!), portanto gosto de proporcionar a mesma experiência a quem lá vai. E é por isso que, se não estiver lá 42 minutos antes do vosso filme começar, devo estar a tratar de outras coisas igualmente importantes para que o possam ver em condições: a limpar a sala, a ver se está tudo a funcionar bem com a tela, com as luzes, com o som, a organizar os intervalos, uma data de coisas. Não nasci com o dom de ser omnipresente, mas prometo-vos que o horário possibilita-me fazer tudo o que deve ser feito... se vocês não andarem por lá a passear e a pedirem a minha atenção e servidão como se o mundo girasse à vossa volta e não existissem outras sessões a passarem antes da vossa.

 

Mas depois não chega, não é? Quando se aproxima a hora de entrada e estou a receber e a rasgar bilhetes, se vos peço para aguardarem lá à frente não é para aguardarem a dois metros de mim, ao lado da fila, no meio do corredor, impedindo a passagem de algumas pessoas, criando uma confusão descomunal de ruído e pessoas aglomeradas. É cansativo. E especialmente se venho lá do fundo e vos peço que aguardem onde estão, epá, não avancem até ao sítio onde estou. Se eu quisesse que viessem ter comigo não vos tinha pedido que aguardassem aí. Sei lá, só por acaso, não pensaram nisso também? E lá tenho eu de vos falar de uma forma mais impaciente, pedindo que dêem volta e que regressem ao ponto de entrada que já lá vou ter convosco, para ter de vos ouvir pessoalmente ofendidas a dizer "que isto não é serviço nenhum". Pois não, miga, porque o serviço de entrada fá-lo-ei com qualidade e simpatia no sítio correcto, não no meio do corredor a 30 metros da entrada com um grupo de 21 pessoas à minha volta, não em fila, como se fossem uns abutres e eu fosse um ser cadavérico. 

 

Mas a verdade é que me questiono para quê toda esta pressa egoísta e mal-educada se, no fundo, vocês não vão ao cinema experienciar um filme. Já nem falo de ficarem até ao final dos créditos (mas olhem, há cenas extras como muitas vezes vos aviso!), deixo isso para gente cinematograficamente apaixonada como eu, mas é que entre chegarem com atraso porque entretanto se lembraram que queriam comprar pipocas (sei lá, não vos ocorreu fazer isso durante aqueles 42 minutos?), saírem a meio do filme para falarem ao telemóvel sobre as compras que têm de fazer e até saírem a meio do filme para irem buscar mais pipocas (se isto não é absurdo, não sei o que é), acharem que os intervalos duram meia-hora como se isto fosse a TVI, fazerem barulho e mexerem nos telemóveis enquanto o filme passa, falarem alto gritarem constantemente na entrada e nos corredores como se estivessem num estádio, não respeitarem as pessoas que lá trabalham e ignorarem constantemente o que vos é pedido, entre outras coisas, gostaria de vos questionar o que vão lá fazer. Vão bater ponto na obrigação de terem alguma actividade de lazer? Vão descarregar a vossa imbecilidade num sítio que devia proporcionar experiências bonitas e reflexivas? Nem vocês sabem por que motivo é que vão, pois não? Parece automático e sempre à pressa. É triste e é frustrante, porque (notícia de última hora!) vocês não são as únicas pessoas no mundo e o vosso comportamento é repetido à exaustão por centenas de outras pessoas. E eu não sou nenhum robot.

 

Às pessoas que não vão nestes termos abomináveis e que não me tiram tanta energia por serem simpáticas/respeitadoras e não serem abutres de paciência:

Obrigada. A sério. Mas se puder pedir-vos alguma coisa só para me facilitar o trabalho e não gastar mais energia do que o necessário para poder aguentar as gentes a quem escrevi nos parágrafos anteriores, gostaria de vos pedir que, quando me derem os bilhetes, não me dêem os bilhetes dobrados e, se possível, também não me dêem a factura (essa é para vocês). E se possível, por favor tirem-nos da mala ou da carteira antes de se dirigirem a mim, porque essa procura por vezes demora, tira tempo e causa algum congestionamento nas entradas. E, por favor, mas por favor mesmo, por muito que sejam simpáticas/os e gostem de conversar comigo sobre referências cinematográficas e por muito que eu esteja disponível para o fazer, NÃO ME CONTEM O QUE ACONTECEU DURANTE O FILME E MUITO MENOS O FINAL. A SÉRIO. Não me abatam um amor que tem sido constantemente espancado pelas outras pessoas. 

 

A todas as pessoas, as imbecis egoístas e as mais humanas, não vos escrevo apenas enquanto funcionária mas sobretudo enquanto alguém que encontra no cinema algo que dá gosto à vida.

Enquanto espectadora, irrita-me profundamente que cheguem com atraso, abram portas, deixem entrar luz e ruído, façam ainda mais barulho enquanto se sentam e enquanto o filme passa, que se metam à minha frente e não me deixem ver as imagens em condições, que façam luz com os telemóveis, enfim, que dêem cabo daquele momento. Enquanto funcionária também me custa deixar-vos entrar quando sei que vão fazer isso tudo com as pessoas que já lá estão. Em vez de vos mandar para a sala X, a minha vontade é de vos mandar para o raio que vos parta.

É suposto o cinema ser magia ainda que não a sintamos com a mesma profundidade: seja um drama ou comédia, seja um clássico ou algo mais superficial, seja a primeira ou a última sessão. É suposto ser um escape dessa mesquinhez social quotidiana e não mais um espaço onde as pessoas são as versões mais comuns e negativas delas mesmas. Mas se é isso que preferem continuar a ser e a vossa prioridade é consumir pipocas e não a história que está a decorrer no ecrã, então gostaria muito que vos engasgassem com elas. 

 

Com pesar, irritação e uma sensação doente desgraçada neste meu dia de folga por estar a repor toda a vossa má energia, termino esta carta, sabendo de antemão que não é apenas no cinema que isto acontece mas é no cinema que mais me dói. 

 

Nunca vossa, zeus me livre, não sou um bicho social e muito menos um robot ovelha da vida real,

Samantha completamente a arder por todos os lados e com vontade de pegar fogo à humanidade

 

(Encontrei trabalho no cinema da terrinha - imaginem se fosse na capital ou noutra cidade maior... - e tive um fim-de-semana de merda. Há mais de um ano que isto não me acontecia: ficar de cama porque a minha energia mental e social se desgastou numa situação laboral. Tenho teorias. Talvez um dia fale sobre elas. Por hoje fica o desabafo.)

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