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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Alma da Vida

Ter mudado de cidade tem sido bom mas não tem sido fácil. 

 

Hoje alguém publicou uma foto daqueles pacotes de açúcar que trazem frases escritas. A deste pacote era "Barriga vazia não conhece alegria" e pensei "e nem imaginas o quanto..." enquanto pensava na pouca comida que me sobra. Trouxe alguma de Setúbal, não muita, e só durou até agora porque tenho andado a racionar. No outro dia, por exemplo, tinha uma espetada com 4 pedaços de carne e tirei dois para esse jantar e guardei os outros dois para a refeição principal do dia seguinte. Não é incomum os meus jantares serem uma batata cozida e uma cenoura.

 

Não ando a comer bem nem com gosto e embora, no que toca aos pesos das alma, ande bem, começo a sentir-me menos bem. Embora já não ande debaixo da nuvem negra que senti durante os últimos tempos, a verdade é que volta e meia sinto-me triste e, algo que já não me acontecia há algum tempo, zangada.

No outro dia fui comprar fruta ao Pingo Doce e tinha à minha frente dois pedaços de melancia, um a 40 cêntimos e outro a 45 cêntimos, e entre baixar e pegar e voltar atrás e trazer o mais barato que me parecia pior (como se veio a confirmar, o que originou outro surto de zanga), perdi os meus óculos de sol. Eu não tenho muitas coisas e, de facto, não sou uma pessoa materialista (desfaço-me sempre do que não me convém), mas estes óculos foram me dados por alguém importante para mim que me tem estado a ajudar a orientar coisas que preciso (roupas, por exemplo) e tinham muito valor sentimental. Têm. Por sorte alguém os encontrou e deixou-os com o segurança da loja e fui buscá-los no dia seguinte. Senti-me muito grata mas não sem antes ter discutido com o universo porque estou cansada de viver à rasca e de perder o pouco que tenho e que me importa por misérias e poupanças de 5 cêntimos em tudo na vida.

 

Não sou idiota e ingénua ao ponto de pensar que posso viver do ar. Já tinha noção disso quando tomei a decisão de vir para aqui e disso não me arrependo e considero que foi a melhor coisa que fiz em anos. Mas, porra, é difícil. Muito difícil. Raciono comida em casa e não consigo ter pequenos prazeres fora dela, como tomar uma cerveja naquele bar onde estava a passar metal pelo qual passei na outra noite, e penso que é apenas por agora e pelos próximos 3 meses mas a minha fome de vida é urgente, é agora, dentro de 29 dias faço 27 anos e os últimos 26 anos foram passados de forma precária.

E então penso se vale a pena pagar o resto da formação de um trabalho que quero fazer e que me vai dar um salário melhor por menos horas e permitir que possa dedicar tempo a mim e à minha criatividade à custa de 3 meses a pouca comida e, nalguns dias, sem comida alguma, ou se me meto nalguns part-times da treta de trabalhos precários que me dão cabo da minha cabeça só para ter dinheiro para comer e pagar o quarto na excelente casa onde me encontro (não quero mesmo sair daqui!). Por causa dos horários, não dá para conjugar os dois.

Vou enviando currículos, por vezes cheia de garra e orgulhosa por me fazer à vida e por vezes desanimada porque toda a minha vida tem sido lutar e lutar e parece que a vida não me dá mais. São decisões que terei de tomar nos próximos dias.

 

Mesmo nos melhores momentos há momentos assim. 

Quero comer uma sopa em condições, um hambúrguer com sabor, se calhar um doce de vez em quando.

Uma cerveja ao final de um dia enquanto escuto uma música ou olho o Tejo do lado de cá por entre os capítulos de um livro.

Quero aproveitar com gosto esta cidade que me vai devolvendo a Alma, saborear a alma da vida que Almada me quer dar e cuja vida tem tido alguma dificuldade em aceitar sem criar mil e duzentos e vinte e um obstáculos.

Ter uma vida em Almada. Alma da Vida. 

 

Ter vindo viver para Almada tem sido bom mas não tem sido fácil.

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