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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Cidade em Chamas

Há viagens literárias que nos fazem sentir em casa mesmo que a cidade que visitemos esteja a arder. Foi o caso de "Cidade em Chamas" de Garth Risk Hallberg, um livro pelo qual me apaixonei desde o primeiro instante quando olhei para a capa e pelo qual me enamorei quando o comecei a ler. É um daqueles amores literários eternos, uma casa ficcional à qual regresso muitas vezes mentalmente e que originou o nome deste lar virtual que tenho vindo a criar nos últimos dias.

Quando o vi a primeira vez, grande e com a sua capa flamejante, quis lê-lo naquele momento. 1000 páginas que valem bem os 30 euros que custava na altura mas que, infelizmente, eu não poderia pagar. Até que, uns meses mais tarde, surgiu a oportunidade e finalmente me pude aventurar naquele que viria a ser o meu livro preferido de todos os que já li até agora - um que ainda não tenho fisicamente comigo mas que preciso de o ter como companheiro na minha vida.

 

Nunca estive em Nova York e não nasci na década de 1970 mas, por vários motivos, senti que já lá tinha estado nessa altura. Não fui apenas transportada em palavras, como parecia que conseguir ouvir, sentir e até cheirar esse pedaço geográfico no tempo. E apesar do enredo complexo e intrincado, não é um livro confuso. Dizer que é um policial, é redutor - e, sinceramente, completamente ao lado. O ponto forte do livro são as personagens e as suas respetivas complexidades, que conhecemos e passamos a entender não pelas suas descrições mas por tudo aquilo que pensam, dizem e fazem. A solidão está presente em cada página, dá para respirar mas não é sufocante. A procura de um lar numa cidade em chamas e em ruínas é notória, sai das páginas e entra nas nossas necessidades também. 

 

Li algures que, quem o quiser ler, não precisa de saber nada sobre Nova Iorque, pós-humanismo, delírios messiânicos ou foguetes para navegar nesta cidade que arde e eu partilho da mesma opinião. Mas não é um livro para qualquer pessoa - ou talvez o seja, quem sou eu para o decidir? A verdade é que não consigo pensar em alguém que eu conheça a quem fizesse sentido recomendá-lo mas, no fundo, talvez os meus delírios solitários não sejam tão sozinhos. A energia queer e punk e uma cidade em transformação, sozinha mas resultado de várias partes, ofereceram-me uma das leituras mais complexas (mas fáceis) e próximas de sempre.

Fiz parte desta cidade e ela faz parte de mim. 

 

«E ela aprendeu que não poderia armazenar nada que, no fundo, tivesse importância. Sentimentos, pessoas, músicas, sexo, fogos de artifício: eles existiam apenas com o tempo e, quando o tempo acabava, eles acabavam também.»

 

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