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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Comunicação ou comunica-não?

Há um par de dias ligaram-me em resposta a uma candidatura que tinha enviado. Queriam marcar uma entrevista pois estavam a contratar para vários departamentos e eu, sabendo que me tinha candidatado à segunda pior coisa que poderia estar a fazer mas que, enfim, era o part-time ideal (das 10h às 14h) para ganhar os trocos necessários para comprar comida, não esperava nada mais ou supostamente melhor do que isso então questionei se podíamos fazer a entrevista para o posto específico ao qual me tinha candidatado. "Sim, sim, mas também estamos a candidatar para vários departamentos e então vemos se pode ir para algum deles...". Não me cheirou bem. Tinha me candidatado a assistência ao cliente num call-center e tenho dois anos e tal de experiência na área pelo que sei como as coisas funcionam e dois obstáculos se punham:

  1. Qualquer promoção a um cargo onde recebesse mais normalmente é interna, a não ser que venha já como supervisora de outro departamento (não é o caso) e normalmente não é part-time;
  2. Não tenho interesse nenhum em fazer carreira em call-center nem em ter cargos de responsabilidade nessa área. Já me cansa demasiado estar nesse ambiente a lidar com clientes, não sou uma pessoa dada a colegas de trabalho e certamente não tenho paciência para ser responsável por "motivar" pessoas a cumprirem objectivos numéricos e capitalistas que a mim não me importam e que considero um desperdício de vida e de humanidade;

 

Voltei a questionar se a entrevista em algum momento iria englobar o cargo ao qual me tinha candidatado e fui o mais transparente e assertiva possível: "É assim, ir à entrevista implica gastar dinheiro no metro. 1,70. Pode não parecer muito mas neste momento é muito do que eu tenho. Portanto preciso que seja honesto comigo, que não haja ambiguidade, e que me diga se vamos mesmo fazer a entrevista para este cargo ou se é uma outra coisa qualquer onde não irei ficar ou terei interesse algum em ficar, porque não me posso dar a luxos de perder tempo, energia e dinheiro nesta altura." 

 

Enfim, pedi honestidade e um pouco de responsabilidade social. Pedi o que me pediam nos requisitos: comunicação clara. Plamordasanta, ando a racionar comida, não pretendo jogar o papel de vítima mas não é exagero quando digo que todos os cêntimos contam nesta altura e sou o mais transparente possível acerca da minha situação. E o homem lá me respondeu que sim, iríamos fazer a entrevista para o cargo em questão. Então lá marcámos.

 

No dia seguinte, uns minutos antes da hora combinada, lá estava eu. Entrei, confiante, e a entrevista começou. Mas não começou bem. Não por mim, que o meu nível de comunicação estava seguro e claro e inteligente (até piadas políticas fiz), ao ponto do homem realmente ter dito genuinamente que eu nasci para ser comercial (mais um sino de perigo a tocar aqui...), ao que respondi que sim, tenho muito jeito com as pessoas mas a minha natureza é muito solitária e socialmente crítica e eu simplesmente não tenho paciência para elas nem para a forma supérflua como o sistema social está construído , daí me ter candidatado a um part-time. Riram-se e apreciou a honestidade. Mas não foi assim que começou, foi como uma colaboradora a perguntar-lhe se podia assistir à entrevista. E ele respondeu que sim. Não me caiu bem mas lá ficou.

Ele começou a questionar coisas e eu entretanto pedi-lhe, de forma cordial e descontraída, que passássemos para o que importava mesmo porque não me sentia à vontade para partilhar informação privada num espaço aberto e muito menos com pessoas desconhecidas e que não estavam responsáveis pelo recrutamento (não é exagero nem mentira, migs, eu sou do signo escorpião e ainda por cima tenho Mercúrio, o planeta da comunicação,  também em escorpião, portanto normalmente digo mesmo estas coisas sem receio). Isto tudo dito sem desrespeito, de forma alegre até, e de uma forma que, honestamente, estava a conquistá-los. Só que a mim estas coisas não me conquistam. E o meu instinto não falha.

 

Afinal a entrevista era para comerciais de porta-a-porta. Fiz logo cara feia. E o horário afinal era das 14h às 18h. 

Vender e fazer contratos mas sem eu própria ter um contrato. A pior coisa que (me recordo) poderia estar a fazer.

 

"Eu candidatei-me porque era um part-time das 10h às 14h. Apoio ao Cliente. Call Center."; disse-lhe.

"Ah, não, eu não gosto de call centers...", respondeu-me o mesmo homem que no dia anterior me tinha confirmado que era para isso mesmo.

 

Passei-me com toda a classe. Estava nesses dias. As palavras saiam-me de forma correcta e fluída e a minha presença estava bastante segura. Sabem? E então, de forma mais pesada, disse-lhe: "E eu não gosto de gente que, conscientemente, não tem um pingo de honestidade nem de responsabilidade humana e social"

 

A cara do homem que, como homem quem é, tentou ganhar controlo com agressividade, é impagável. Infelizmente. Queria que este tipo de situações fossem apagadas da história da humanidade e da essência que nos corre na alma. É nojento. Mais algumas coisas foram ditas, nomeadamente a menção ao que se tinha falado ao telemóvel, sempre em controlo da "conversa", despedi-me com um: "Aqui não perco mais tempo, pessoas como tu não valem um chavo".

 

E saí com toda a confiança e dignidade possível mas assim que cheguei a casa desabei, irritada, sem confiança num futuro positivo para mim. Fiquei desgastada. Agora, mais recuperada, juro que nem que tenha de ir pedir dinheiro para a rua e comer à cantina social ou fazer uma refeição por dia apenas nalguns dias nos próximos tempos, eu vou terminar a minha formação de vigilante e encontrar um trabalho em condições e que quero fazer neste momento e que me dê tempo para me dedicar, nos tempos livres, a mim e à minha criatividade e, consequentemente, felicidade. Epá, tem de ser. Nem sei bem como sobreviver nos próximos tempos mas não faz parte do meu feitio compactuar com estas merdas. De todos os defeitos que, como ser humano, posso ter, sei que um deles não é a falta de humanidade e responsabilidade social. E isto tem de valer alguma coisa mais do que o grande salário que o desgraçado da entrevista e as corporações recebem à pala de gente que precisa.

 

Tanto pedem boas capacidades de comunicação que se esquecem da mais importante: transparência. 

Talvez este tipo de pessoas e "empresas" vendessem mais se não vendessem a alma. 

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