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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Consentir é que é romântico, ok

Um ano destes fui ao Queer Lisboa, um festival de cinema especificamente lgbt*, e durante um dos filmes que estava a ver houve uma cena de um beijo inesperado/forçado. Lembro-me de na altura ter comentado, indignada, "mas ela nem pergunta se a pode beijar?!", questão à qual uma das pessoas que com quem eu tinha ido me responde, como se eu fosse uma parola que não percebesse nada daquilo, que "estas coisas não se perguntam, assim mata o romantismo". 

O romantismo, o maldito romantismo. Na urgência de o manter vivo, a romantização deste tipo de comportamentos mata. Pode não ser na hora e pode não ser de uma forma física: mas mata e contribui para a matança da auto-determinação de cada pessoa, entre outras mortes mais orgânicas  e permanentes.  

 

Lembra-me sempre aquela história que eu li algures sobre uma discussão entre um casal em que ele a cala com um beijo. Era uma cena específica qualquer de um filme mas é uma cena generalizada cá fora, já sabemos. Felizmente já se vai falando disso e já se vai desconstruindo a romantização destes gestos sexistas sobre a mulher - ainda que, infelizmente, se perpetuem. Mas e entre pessoas do mesmo sexo e/ou género?

 

Quando eu tinha cerca de 15 anos, conheci uma rapariga, enfim, o normal na adolescência. Uns beijinhos que não pedi aqui e umas mãos à força toda por ali. Muito romântico, sem dúvida. Só recentemente cheguei ao entendimento de que isto não foi apenas uma anulação do meu direito a consentir como foi, também, um abuso sexual. Mas tudo bem, a moça era uma moça, não um moço, e gostava de mim portanto ela não fez por mal, pois não? Não é como se tivesse sido mesmo grave, não é? Que parvoíce a minha de querer que ela me tivesse perguntado antes, eu a estragar o clima, nem sensível nem romântica, ó Samantha.

 

Essa história de matar o romantismo não é apenas uma grande treta, é perigosa. Há várias maneiras de perguntar sem ser de forma verbal para não estragar o clima. Há várias maneiras de o fazer verbalmente e ainda assim não estragar o clima. Agora o que não há é uma maneira que seja romântica que implique não ter o consentimento, seja de que forma for, da outra pessoa. Isso não há. Mesmo entre mulheres. 

 

*lésbicas, gays, bissexuais e trans (transgéneros e transexuais)

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