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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

O dia em que me perdi numa ilha e um burro salvou-me a vida

 Mais especificamente em Inisheer (gaélico irlandês:  Inis Oírr), a mais pequena das 3 Ilhas de Aran, um grupo de ilhas localizadas na baía de Galway na Irlanda. É a mais pequena e a mais oriental mas eu também não sou lá muito grande e fiquei completamente desorientada portanto, como podem imaginar, esta combinação teve tanto de quase fatal como de engraçado (e vistas espetaculares e algumas fotos para o comprovar). 

Inisheer_-_Aran_Islands.svg.png

 

O que aconteceu é que, mais uma vez, decidi fazer o caminho menos percorrido. Só que desta vez não o sabia. Sabia que estava a ir pelo caminho oposto ao de toda a gente mas eu nunca gostei de multidões e, no fundo, era a minha viagem de aniversário e eu não estava com disposição para partilhá-la de forma turística com gente desconhecida mas, enfim, "a ilha é pequena", pensei eu, "dá para regressar a tempo de apanhar o barco de regresso". Só que não.

 

Comecei a caminhar, tranquila da vida. Já nem música ia a ouvir porque os sons e os silêncios naturais da ilha soavam mesmo a paraíso. Ao início existiam algumas casas, a ilha é habitada embora seja por pouca gente, mas rapidamente isso deixou de acontecer e eram apenas caminhos com muros de pedra e verde e azul à minha volta. O paraíso irlandês como o conhecemos de algumas imagens. Rapidamente percebi que estava num sítio intocável mas continuei descansada a aproveitar o caminho, as vistas, a descoberta e a fazer vídeos para uma amiga em que eu, super contente e divertida, dizia que estava perdida. Só que, lá está, "a ilha é pequena e dá para regressar a tempo de apanhar o barco de regresso". Só que não. Mas quem acredita, vai. 

 

Para terem dois pontos de referência, olhem esta casa antiga e este barco. Saibam que, enquanto caminhava para lá, a casa estava perto e o barco bem ao longe. 

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20 minutos, 45 minutos, se calhar 1 hora? Caminhei muito num sítio lindo e sem ninguém. A estrada e o verde iam ficando para trás e ao lado e comecei a entrar num caminho perto do mar, tudo cheio de pedra. Saltei por aí porque não dava simplesmente para caminhar. Olhei para o relógio e comecei a pensar que afinal a ilha talvez não fosse assim tão pequena e que não dava para regressar a tempo de apanhar o barco de regresso se seguisse em frente. Então ao fundo deste caminho vi o farol da ilha e pensei "ok, vamos lá. Dá para chegar até lá e voltar para trás". Só que também não, não é?! 

 

Quase que me espalhei várias vezes e quando parecia que estava quase, na verdade ainda faltava. Mas quando estava quase-quase, deparei-me com uma vaca. Mas afinal não era uma vaca, era um boi. Acho eu. Vi os cornos do animal enquanto me fixava com cara de que-animal-estranho-és-tu-e-o-que-fazes-na-minha-ilha e de repente a ilha pareceu-me como é em comparação a um ser humano: enorme. Apanhei um susto. Imaginei todas as cenas possíveis das abomináveis corridas de touros (ugh) em que as pessoas incomodam os pobres animais e tofas, levam com os cornos pelo cu (bem-feita!). Olhei para o farol, olhei para o boi, olhei para trás do boi e vi mais bovinos. "Vou voltar para trás, assim estou à vontade para apanhar o barco de regresso."... só o que é que vos estou a dizer desde o início? Não. Só que não. 

 

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Depois de uns bons 21 minutos a tentar sair das pedras enquanto olhava constantemente para o boi atrás, lá encontrei o caminho de volta. Pensava eu. As pedras estavam a acabar, sim... mas o barco estava perto e a casa ao longe! Pronto, nada que se resolva. Decidi ir pelo meio dos campos típicos irlandeses, "é só saltar os muros para cortar caminho", pensei.  Só que.... acertaram, não. 

Eu de facto saltei muros. Mas também caí sem parar porque os muros irlandeses nada mais são do que pedras amontoadas sem cimento ou argamassa, portanto a falta de estabilidade dos muros era do tamanho da ilha que afinal não era tão pequena assim. Saltei, caí e rastejei. Era um sítio inóspito e intocável, então as ervas eram altas e daquelas que se enrolam nas pernas e que cada passo tem que ser um pontapé. E quando pensava que já estava quase a chegar à estrada, vinha outro muro e outras ervas e eu já falava alto, desesperada, e pedia a todos as deusas do universo que me ajudassem. A ajuda demorou a chegar mas o julgamento de 4 ovelhas não. Fiquei nisto durante muito tempo, devo ter feito exercício para um ano inteiro. Sem comida, sem água, encharcada em suor... e com o mapa da ilha que só lembrei de ver nessa altura.

 

Quando finalmente encontrei a estrada, faltavam menos de 15 minutos para o barco abalar e eu devia estar a pelo menos 30 minutos de distância a pé - e isto com as pernas em condições, o que não era o caso dado o desporto olímpico da corrida rural em obstáculos que tinha feito anteriormente. Mas quem acredita, vai. Só que não. A não ser que venha um burro e nos salve, abençoado seja. E, felizmente, foi o que aconteceu. Conseguem imaginar o alívio de ouvir o claq-claq-claq das patas de um animal com uma carroça atrás? Parece surreal mas não é. Oh, senhores, sinais de vida e de alguma velocidade e eu lá pedi boleia ao senhor do burro e conseguir chegar mesmo em cima da hora ao barco. Mediante a quantia de 10 euros mas, olhando para esta foto, tudo valeu a pena, não é? Só que... sim. 

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 (O burro não se magoou durante esta história. Que eu saiba. Espero que não.)

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