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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

or another

Estou há cinco meses em casa. Vá, de vez em quando saio, no outro dia até fui despejar o lixo e acabei a voar contra o caixote portanto nem tudo é aborrecido.

 

Quando me despedi, achava genuinamente que viajar seria a solução dos meus problemas. Afinal sempre vim melhor de todas as viagens que fiz. Quem não vem? Entretanto percebi que estava errada. Os problemas, se não os resolver, hão-de estar comigo aonde quer que eu vá ou fique: Setúbal, Irlanda ou Marte.
Parei o carro e avaliei de novo a estrada. "Ok, se calhar o caminho agora é outro". Tive um grande acidente pelo caminho e outros menos graves mas já estou a recuperar. Voltei a pegar no volante e, numa corrida contra o preço do gasóleo, vou planeando novos rumos - e rumos certos - e espreitando novas perspectivas pela janela.

 

Sei bem o que não quero. Sei que não quero voltar para um trabalho de merda que me ocupava os dias e não me estimulava a mente. Sei que não quero viver uma vida a meias e sendo menos de tudo o que sou capaz de ser. Sei que não quero - nem vou - contentar-me com as poucas opções precárias que me parecem restar porque não tenho diplomas. Talvez precise de diplomas para me tornar sô doutora (se bem que tenho 14 temporadas de Anatomia de Grey em cima, chupa essa, Faculdade de Medicina! Mas não se preocupem) mas não preciso de diplomas para contar histórias - só de coração e algum jeito para a coisa.

 

Nada me garante sucesso mas não tentar garante, sem dúvida, fracasso. E falhar de vez em quando não é vergonhoso e há-de acontecer, naturalmente. Hei-de ganhar mais cicatrizes mas não me envergonho daquelas que já tenho. Hei-de ter mais acidentes mas à beira da estrada é que não fico. É que se não é para crescer, mudar, seguir caminho e desbravar novas direcções, então mais valia ter ficado naquela linha de comboio há uns anos atrás. Mas não fiquei. Agora é altura de lutar pelos meus sonhos porque lutar por eles é lutar por mim. É altura de apanhar o comboio em direcção à vida em vez de me deitar, desistente, e vê-lo passar por cima de mim.

 

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 ( IRLANDA EM OUTUBRO DE 2017)

 

Estarei em mim onde estou?

Neste momento estarei na Noruega (abençoado agendamento de publicações). Se estou a divertir-me ou a morrer de aborrecimento ou tristemente frustrada, não sei. Se terei aventuras e histórias para contar ou desabafos e reflexões para desafogar também nao sei. Viajar é dar lugar ao imprevisível por mais planos que se façam e, sinceramente, não fiz quase nenhuns. Tenho os meus receios que poderão concretizar-se ou não. Eu sei, a Noruega é considerado um país super seguro. Os meus medos nunca são geográficos ou criminais, são mentais e emocionais. Estou habituada a viajar sozinha, o que não é o caso desta viagem, não sou uma pessoa lá muito sociável e a nível pessoal há arestas que tenho a limar com algumas pessoas na minha vida. Deve ser como trabalhar com a família: ou corre muito bem ou mal e as consequências, boas ou más, são maioritariamente pessoais. Mas, enfim, apesar dos receios para lá vou com quem vou porque o maior erro que uma pessoa pode cometer ao viajar é, efectivamente, não viajar. Portanto não sei como estarei neste momento, apenas que estarei na Noruega. Como estou eu saberei lá onde neste momento estou.

Viagens arco-íris e unicórnios viajantes

Costumo acompanhar blogs ou contas de instagram de pessoas que viajam com frequência. E, sendo parte da comunidade LGBTQI+, é mais do que natural que acompanhe algumas pessoas também elas LGBTQI+ que costumam viajar. E tem sido muito interessante ver o mundo dessa perspectiva, que não é totalmente diferente mas que tem as suas especificidades e que me tocam muito perto do coração.

 

Um dos pontos de encontro virtual é a página de instagram The Travel Unicorn. Tem também um site com o mesmo nome com alguns testemunhos e diários de viagem de pessoas LGBTQI+. É um projecto que foi fundado em Novembro de 2016 por Carly que, após mais uma das suas viagens, começou a sentir a falta de uma plataforma que unisse viajantes arco-íris e que permitisse a partilha de histórias, recomendações e apoio entre si. Hoje em dia é um dos pontos centrais na comunidade de viajantes LGBTQI+. 

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Conheci este projecto através da Steph e da Tay, duas namoradas nómadas que fazem uso da página lesbinomadic para partilhar as suas aventuras. E através de The Travel Unicorn conheci a página da Thai e da Sil, que têm estado a viajar desde o início do ano sem parar, já visitaram cerca de 11 países, saíram ontem da Roménia e chegaram hoje a Londres. Entre outras tantas que acompanho e que vou conhecendo, a Vamo? Vamo! Trip da Thai e da Sil tem sido a minha viagem preferida. As fotos são maravilhosas, é certo, mas o mais engraçado, interessante e próximo são as histórias que elas fazem para o instagram, pois fazem de uma maneira tão despretensiosa e real que mais parece que as conhecemos e que são nossas amigas que foram viajar. 

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Outro dos pontos de encontro é a rede social elgeeBE. Não experimentei portanto não sei quais são os prós e os contras. Sigo apenas a respectiva página no instagram, de qualquer das formas deixo-a aqui como sugestão para darem uma olhada. Quem sabe a próxima viagem arco-íris não estará à distância de um clique? Enquanto não posso explorar o mundo por mim, exploro através da perspectiva de quem, como eu, viaja para ser livre. 

Despedi-me do trabalho para ir viajar

É verdade. Mas se esperam uma história cheia de utopias, certezas e planos, então podem largar essas expectativas. Tudo o que vos tenho para contar são vontades e necessidades de me fazer à estrada e de cuidar de mim pelo caminho. Como? Ainda estou a tentar entender mas, em termos práticos, a viagem começa assim:

 

Após ter regressado a Portugal depois de um ano a viver em Espanha, tive que encontrar um trabalho. Ninguém me sustenta e eu na altura estava a dormir no chão de uma sala. Não era lá muito confortável, não pelo chão mas por esta falta de lar que sempre senti ao longo da minha vida, mais acentuada pela intensa experiência profissional e pessoal que vivi em Espanha. Lá encontrei um trabalho em Lisboa, para onde me mudei e onde fiquei os últimos dois anos a trabalhar. A viver? Nem por isso. O sistema laboral em Portugal é quase desumano e aliado ao facto de a nível pessoal e inter-relacional eu nunca ter tido grandes ferramentas sociais, tudo era trabalho-quarto minúsculo-trabalho. Mas de estados depressivos falaremos noutra altura. O importante é que depois de ter passado os últimos anos num tormento mental e físico (porque se refletiu na saúde e na aparência de forma extrema), em Maio deste ano decidi despedir-me. E foi isso que fiz.

 

Fiquei a trabalhar até ao meio de Outubro para ganhar um avanço monetário, usando os dias de férias que tinha no resto do mês. Em Agosto comprei um bilhete de ida para a Irlanda, portanto a viagem para fora do inferno que era a minha cabeça estava em marcha. Não sabia quanto tempo lá iria ficar mas sabia que iria para Galway. E comecei a ficar mais tranquila, com um propósito, e a fazer outras alterações na minha vida que me permitiram recuperar a minha saúde física e mental. Não foi fácil, vários passos atrás, e é um processo contínuo e do qual estou orgulhosa porque já não me sinto cheia de coisas negativas. Tenho algumas incertezas mas não me sufocam como as certezas demoníacas que quase me destruíram. 

 

Na Irlanda acabei por ficar um pouco mais de uma semana. Ontem vim para o Porto e uns dias depois vou para a Noruega. Desde pequena que, mais do que querer, sinto que nasci para viajar sem parar de malas às costas, à boleia e a escrever memórias como o Kerouac (que eu não sabia quem era na altura mas que tem sido um companheiro constante na luta contra todos os demónios fronteiriços). As pesquisas estão a caminho, os planos ainda não. Apenas as vontades. Até lá vou passar uns dias noutros lados. Percebi que as viagens que ando a fazer não são apenas geográficas. Ando a reaprender a viajar, quer em termos práticos como saber onde é que vou ficar de forma barata, quer em termos emocionais e mentais como saber ficar na vida de quem me tem valor. Até lá vou ao volante deste transporte em chamas neste mundo virtual de palavras, partilhando convosco as viagens passadas, as viagens atuais e as viagens que estão por vir. Podem fazer as malas e colocar os cintos, temos que abalar antes que a portagem se torne cara.