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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

A lésbica alienada

Não fui à Marcha do Orgulho LGBTI+ nem vou ao Arraial Pride. Também não vi nenhum jogo de Portugal. Desinteressei-me por futebol há muitos anos, tenho vindo a ser deixada de parte pela comunidade LGBTI+ desde que me lembro. Duas situações distintas que me deixam na mesma posição social: à margem. O futebol é o menos, olhem, não gosto então não vejo. O resto vejo - e não gosto. Não é da parte política; acho importante. Não é da parte mais festiva; também acho importante. Também não é da Marcha nem do Arraial em si; tudo é importante. O importante é que isso parece ser tudo - e não devia ser. 

Há quem encontre lugar na Marcha e ainda bem; é só importante relembrar que não, na marcha não há lugar para toda a gente. Nem no Arraial. E certamente não dentro de campo. Há quem fique no banco e há quem nem seja convocado: na marcha, no arraial ou num jogo de Portugal. 

 

Mais um verão: uma lésbica em mês de orgulho e uma portuguesa alienada.

 

(Post escrito a 21 de Junho de 2018, creio que após ter lido um texto sobre alguém que falava da marcha como a coisa mais inclusiva de todo o sempre. Decorria o Mundial de Futebol.

Andei a passear pelos meus rascunhos.)

Comunicação ou comunica-não?

Há um par de dias ligaram-me em resposta a uma candidatura que tinha enviado. Queriam marcar uma entrevista pois estavam a contratar para vários departamentos e eu, sabendo que me tinha candidatado à segunda pior coisa que poderia estar a fazer mas que, enfim, era o part-time ideal (das 10h às 14h) para ganhar os trocos necessários para comprar comida, não esperava nada mais ou supostamente melhor do que isso então questionei se podíamos fazer a entrevista para o posto específico ao qual me tinha candidatado. "Sim, sim, mas também estamos a candidatar para vários departamentos e então vemos se pode ir para algum deles...". Não me cheirou bem. Tinha me candidatado a assistência ao cliente num call-center e tenho dois anos e tal de experiência na área pelo que sei como as coisas funcionam e dois obstáculos se punham:

  1. Qualquer promoção a um cargo onde recebesse mais normalmente é interna, a não ser que venha já como supervisora de outro departamento (não é o caso) e normalmente não é part-time;
  2. Não tenho interesse nenhum em fazer carreira em call-center nem em ter cargos de responsabilidade nessa área. Já me cansa demasiado estar nesse ambiente a lidar com clientes, não sou uma pessoa dada a colegas de trabalho e certamente não tenho paciência para ser responsável por "motivar" pessoas a cumprirem objectivos numéricos e capitalistas que a mim não me importam e que considero um desperdício de vida e de humanidade;

 

Voltei a questionar se a entrevista em algum momento iria englobar o cargo ao qual me tinha candidatado e fui o mais transparente e assertiva possível: "É assim, ir à entrevista implica gastar dinheiro no metro. 1,70. Pode não parecer muito mas neste momento é muito do que eu tenho. Portanto preciso que seja honesto comigo, que não haja ambiguidade, e que me diga se vamos mesmo fazer a entrevista para este cargo ou se é uma outra coisa qualquer onde não irei ficar ou terei interesse algum em ficar, porque não me posso dar a luxos de perder tempo, energia e dinheiro nesta altura." 

 

Enfim, pedi honestidade e um pouco de responsabilidade social. Pedi o que me pediam nos requisitos: comunicação clara. Plamordasanta, ando a racionar comida, não pretendo jogar o papel de vítima mas não é exagero quando digo que todos os cêntimos contam nesta altura e sou o mais transparente possível acerca da minha situação. E o homem lá me respondeu que sim, iríamos fazer a entrevista para o cargo em questão. Então lá marcámos.

 

No dia seguinte, uns minutos antes da hora combinada, lá estava eu. Entrei, confiante, e a entrevista começou. Mas não começou bem. Não por mim, que o meu nível de comunicação estava seguro e claro e inteligente (até piadas políticas fiz), ao ponto do homem realmente ter dito genuinamente que eu nasci para ser comercial (mais um sino de perigo a tocar aqui...), ao que respondi que sim, tenho muito jeito com as pessoas mas a minha natureza é muito solitária e socialmente crítica e eu simplesmente não tenho paciência para elas nem para a forma supérflua como o sistema social está construído , daí me ter candidatado a um part-time. Riram-se e apreciou a honestidade. Mas não foi assim que começou, foi como uma colaboradora a perguntar-lhe se podia assistir à entrevista. E ele respondeu que sim. Não me caiu bem mas lá ficou.

Ele começou a questionar coisas e eu entretanto pedi-lhe, de forma cordial e descontraída, que passássemos para o que importava mesmo porque não me sentia à vontade para partilhar informação privada num espaço aberto e muito menos com pessoas desconhecidas e que não estavam responsáveis pelo recrutamento (não é exagero nem mentira, migs, eu sou do signo escorpião e ainda por cima tenho Mercúrio, o planeta da comunicação,  também em escorpião, portanto normalmente digo mesmo estas coisas sem receio). Isto tudo dito sem desrespeito, de forma alegre até, e de uma forma que, honestamente, estava a conquistá-los. Só que a mim estas coisas não me conquistam. E o meu instinto não falha.

 

Afinal a entrevista era para comerciais de porta-a-porta. Fiz logo cara feia. E o horário afinal era das 14h às 18h. 

Vender e fazer contratos mas sem eu própria ter um contrato. A pior coisa que (me recordo) poderia estar a fazer.

 

"Eu candidatei-me porque era um part-time das 10h às 14h. Apoio ao Cliente. Call Center."; disse-lhe.

"Ah, não, eu não gosto de call centers...", respondeu-me o mesmo homem que no dia anterior me tinha confirmado que era para isso mesmo.

 

Passei-me com toda a classe. Estava nesses dias. As palavras saiam-me de forma correcta e fluída e a minha presença estava bastante segura. Sabem? E então, de forma mais pesada, disse-lhe: "E eu não gosto de gente que, conscientemente, não tem um pingo de honestidade nem de responsabilidade humana e social"

 

A cara do homem que, como homem quem é, tentou ganhar controlo com agressividade, é impagável. Infelizmente. Queria que este tipo de situações fossem apagadas da história da humanidade e da essência que nos corre na alma. É nojento. Mais algumas coisas foram ditas, nomeadamente a menção ao que se tinha falado ao telemóvel, sempre em controlo da "conversa", despedi-me com um: "Aqui não perco mais tempo, pessoas como tu não valem um chavo".

 

E saí com toda a confiança e dignidade possível mas assim que cheguei a casa desabei, irritada, sem confiança num futuro positivo para mim. Fiquei desgastada. Agora, mais recuperada, juro que nem que tenha de ir pedir dinheiro para a rua e comer à cantina social ou fazer uma refeição por dia apenas nalguns dias nos próximos tempos, eu vou terminar a minha formação de vigilante e encontrar um trabalho em condições e que quero fazer neste momento e que me dê tempo para me dedicar, nos tempos livres, a mim e à minha criatividade e, consequentemente, felicidade. Epá, tem de ser. Nem sei bem como sobreviver nos próximos tempos mas não faz parte do meu feitio compactuar com estas merdas. De todos os defeitos que, como ser humano, posso ter, sei que um deles não é a falta de humanidade e responsabilidade social. E isto tem de valer alguma coisa mais do que o grande salário que o desgraçado da entrevista e as corporações recebem à pala de gente que precisa.

 

Tanto pedem boas capacidades de comunicação que se esquecem da mais importante: transparência. 

Talvez este tipo de pessoas e "empresas" vendessem mais se não vendessem a alma. 

Alma da Vida

Ter mudado de cidade tem sido bom mas não tem sido fácil. 

 

Hoje alguém publicou uma foto daqueles pacotes de açúcar que trazem frases escritas. A deste pacote era "Barriga vazia não conhece alegria" e pensei "e nem imaginas o quanto..." enquanto pensava na pouca comida que me sobra. Trouxe alguma de Setúbal, não muita, e só durou até agora porque tenho andado a racionar. No outro dia, por exemplo, tinha uma espetada com 4 pedaços de carne e tirei dois para esse jantar e guardei os outros dois para a refeição principal do dia seguinte. Não é incomum os meus jantares serem uma batata cozida e uma cenoura.

 

Não ando a comer bem nem com gosto e embora, no que toca aos pesos das alma, ande bem, começo a sentir-me menos bem. Embora já não ande debaixo da nuvem negra que senti durante os últimos tempos, a verdade é que volta e meia sinto-me triste e, algo que já não me acontecia há algum tempo, zangada.

No outro dia fui comprar fruta ao Pingo Doce e tinha à minha frente dois pedaços de melancia, um a 40 cêntimos e outro a 45 cêntimos, e entre baixar e pegar e voltar atrás e trazer o mais barato que me parecia pior (como se veio a confirmar, o que originou outro surto de zanga), perdi os meus óculos de sol. Eu não tenho muitas coisas e, de facto, não sou uma pessoa materialista (desfaço-me sempre do que não me convém), mas estes óculos foram me dados por alguém importante para mim que me tem estado a ajudar a orientar coisas que preciso (roupas, por exemplo) e tinham muito valor sentimental. Têm. Por sorte alguém os encontrou e deixou-os com o segurança da loja e fui buscá-los no dia seguinte. Senti-me muito grata mas não sem antes ter discutido com o universo porque estou cansada de viver à rasca e de perder o pouco que tenho e que me importa por misérias e poupanças de 5 cêntimos em tudo na vida.

 

Não sou idiota e ingénua ao ponto de pensar que posso viver do ar. Já tinha noção disso quando tomei a decisão de vir para aqui e disso não me arrependo e considero que foi a melhor coisa que fiz em anos. Mas, porra, é difícil. Muito difícil. Raciono comida em casa e não consigo ter pequenos prazeres fora dela, como tomar uma cerveja naquele bar onde estava a passar metal pelo qual passei na outra noite, e penso que é apenas por agora e pelos próximos 3 meses mas a minha fome de vida é urgente, é agora, dentro de 29 dias faço 27 anos e os últimos 26 anos foram passados de forma precária.

E então penso se vale a pena pagar o resto da formação de um trabalho que quero fazer e que me vai dar um salário melhor por menos horas e permitir que possa dedicar tempo a mim e à minha criatividade à custa de 3 meses a pouca comida e, nalguns dias, sem comida alguma, ou se me meto nalguns part-times da treta de trabalhos precários que me dão cabo da minha cabeça só para ter dinheiro para comer e pagar o quarto na excelente casa onde me encontro (não quero mesmo sair daqui!). Por causa dos horários, não dá para conjugar os dois.

Vou enviando currículos, por vezes cheia de garra e orgulhosa por me fazer à vida e por vezes desanimada porque toda a minha vida tem sido lutar e lutar e parece que a vida não me dá mais. São decisões que terei de tomar nos próximos dias.

 

Mesmo nos melhores momentos há momentos assim. 

Quero comer uma sopa em condições, um hambúrguer com sabor, se calhar um doce de vez em quando.

Uma cerveja ao final de um dia enquanto escuto uma música ou olho o Tejo do lado de cá por entre os capítulos de um livro.

Quero aproveitar com gosto esta cidade que me vai devolvendo a Alma, saborear a alma da vida que Almada me quer dar e cuja vida tem tido alguma dificuldade em aceitar sem criar mil e duzentos e vinte e um obstáculos.

Ter uma vida em Almada. Alma da Vida. 

 

Ter vindo viver para Almada tem sido bom mas não tem sido fácil.

Sem merdas

«Sabes, prefiro passar a imagem de que estou a fazer figura de idiota do que por dentro sentir e de facto ser uma idiota que não valoriza as pessoas que passam e passaram na minha vida. Se essas mesmas pessoas não têm a coragem e a decência de fazer o mesmo comigo, então por muito que me custe terei de aceitar que não é minha responsabilidade e que não há mais nada que eu possa fazer. Mas realmente não tenho feitio para estas merdas, e agora toma um conselho aqui da tua amiga (embora reconheça que nem sempre é fácil actuar sobre ele): se tens mesmo alguma coisa a dizer a alguém, especialmente coisas positivas como abrir a porta a uma resolução ou dizer que a pessoa é importante para ti, tu diz sem esperar ocasiões especiais. Dizer estas coisas não é mendigar, ao contrário da crença popular do amor próprio.»

 

Enviei estas palavras à minha amiga perante um desabafo acerca de uma situação com a qual estou a lidar neste momento. 

 

A verdade é que já não tenho medo de abrir portas emocionais e inter-relacionais. A parte boa de fugir ao padrão dos guiões sociais é que não me meto, pelo menos de forma consciente, nos jogos comportamentais após algumas situações correrem menos bem. Se é por falta de respeito, então sei também fechar as portas. Mas se simplesmente não era para acontecer porque, enfim, a vida por vezes mete-se pelo meio da vida, não vejo motivo para não reconhecer e sorrir se alguém por quem tive, e tenho (embora já não de uma forma romântica), imenso carinho está a passar por mim na rua.

 

Um ano e meio depois, na última quarta-feira, fui ver um filme japonês quase à borla. E ia pensando, tranquila, que esta cidade oferece-me coisas acessíveis e que, acima de tudo, são do meu interesse. E então ela passou por mim. O meu coração encheu-se de carinho, uma estima tão grande que se reflectiu num sorriso enorme preparado para soltar um "olá, é tão bom ver-te nesta cidade!" e que foi presenteado com um desvio de olhar e uma cabeça baixa que se recusava a reconhecer-me. Foi triste. Pareceu-me ter visto vergonha na sua cara. Fiquei entre o surpreendida, o chateada e, mais tarde, triste - mas empática. Não quero que se sinta desconfortável numa cidade que sempre foi a dela, e eu daqui não pretendo sair, pelo que um par de dias depois enviei-lhe uma mensagem que abria portas, caso o tivesse feito por não me conseguir encarar, ou que respeitava a saída por essa mesma porta caso o tivesse feito por simplesmente não querer falar comigo. Tudo bem (dentro daquilo que "bem" pode ser... é triste, mas é a vida). Só não admito que não me encarem como se fosse menos que nada, um monstro, um ser que tivesse feito muito mal a alguém (neste caso nem houve erros, foram simplesmente caminhos diferentes que foram seguidos por ambas as partes): prefiro que me ignorem como se fosse só mais uma pessoa a passar na rua. É mais digno.

 

Partilhei isto com a minha amiga que, sem julgamentos, me disse que se senti a necessidade de mandar a mensagem para ficar descansada (e, confesso, para deixar a outra parte descansada), então que só esperava que a outra parte valorizasse o facto de ter aberto assim o coração, como abro sempre, e que tivesse a decência de me responder. E cheguei à conclusão inicial deste texto.

 

Ainda não teve essa decência - ou coragem. Eu tive. E continuarei a ter, seja por quem for. Continuarei a abrir portas e o meu coração, mas não ficarei a segurá-las nem a segurá-lo à espera como se fosse a recepcionista das emoções de alguém. Não espero reciprocidade de sentimentos, mas espero reciprocidade de consideração. Aqui entra quem eu deixar apenas mas também só entra se quiser. A porta está aberta. Na incapacidade de perguntarem se podem voltar a entrar, continuarei a dizer:

"És bem-vinda!". Sem merdas.