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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Sem merdas

«Sabes, prefiro passar a imagem de que estou a fazer figura de idiota do que por dentro sentir e de facto ser uma idiota que não valoriza as pessoas que passam e passaram na minha vida. Se essas mesmas pessoas não têm a coragem e a decência de fazer o mesmo comigo, então por muito que me custe terei de aceitar que não é minha responsabilidade e que não há mais nada que eu possa fazer. Mas realmente não tenho feitio para estas merdas, e agora toma um conselho aqui da tua amiga (embora reconheça que nem sempre é fácil actuar sobre ele): se tens mesmo alguma coisa a dizer a alguém, especialmente coisas positivas como abrir a porta a uma resolução ou dizer que a pessoa é importante para ti, tu diz sem esperar ocasiões especiais. Dizer estas coisas não é mendigar, ao contrário da crença popular do amor próprio.»

 

Enviei estas palavras à minha amiga perante um desabafo acerca de uma situação com a qual estou a lidar neste momento. 

 

A verdade é que já não tenho medo de abrir portas emocionais e inter-relacionais. A parte boa de fugir ao padrão dos guiões sociais é que não me meto, pelo menos de forma consciente, nos jogos comportamentais após algumas situações correrem menos bem. Se é por falta de respeito, então sei também fechar as portas. Mas se simplesmente não era para acontecer porque, enfim, a vida por vezes mete-se pelo meio da vida, não vejo motivo para não reconhecer e sorrir se alguém por quem tive, e tenho (embora já não de uma forma romântica), imenso carinho está a passar por mim na rua.

 

Um ano e meio depois, na última quarta-feira, fui ver um filme japonês quase à borla. E ia pensando, tranquila, que esta cidade oferece-me coisas acessíveis e que, acima de tudo, são do meu interesse. E então ela passou por mim. O meu coração encheu-se de carinho, uma estima tão grande que se reflectiu num sorriso enorme preparado para soltar um "olá, é tão bom ver-te nesta cidade!" e que foi presenteado com um desvio de olhar e uma cabeça baixa que se recusava a reconhecer-me. Foi triste. Pareceu-me ter visto vergonha na sua cara. Fiquei entre o surpreendida, o chateada e, mais tarde, triste - mas empática. Não quero que se sinta desconfortável numa cidade que sempre foi a dela, e eu daqui não pretendo sair, pelo que um par de dias depois enviei-lhe uma mensagem que abria portas, caso o tivesse feito por não me conseguir encarar, ou que respeitava a saída por essa mesma porta caso o tivesse feito por simplesmente não querer falar comigo. Tudo bem (dentro daquilo que "bem" pode ser... é triste, mas é a vida). Só não admito que não me encarem como se fosse menos que nada, um monstro, um ser que tivesse feito muito mal a alguém (neste caso nem houve erros, foram simplesmente caminhos diferentes que foram seguidos por ambas as partes): prefiro que me ignorem como se fosse só mais uma pessoa a passar na rua. É mais digno.

 

Partilhei isto com a minha amiga que, sem julgamentos, me disse que se senti a necessidade de mandar a mensagem para ficar descansada (e, confesso, para deixar a outra parte descansada), então que só esperava que a outra parte valorizasse o facto de ter aberto assim o coração, como abro sempre, e que tivesse a decência de me responder. E cheguei à conclusão inicial deste texto.

 

Ainda não teve essa decência - ou coragem. Eu tive. E continuarei a ter, seja por quem for. Continuarei a abrir portas e o meu coração, mas não ficarei a segurá-las nem a segurá-lo à espera como se fosse a recepcionista das emoções de alguém. Não espero reciprocidade de sentimentos, mas espero reciprocidade de consideração. Aqui entra quem eu deixar apenas mas também só entra se quiser. A porta está aberta. Na incapacidade de perguntarem se podem voltar a entrar, continuarei a dizer:

"És bem-vinda!". Sem merdas. 

I'd rather fight than just fake it (cause I like it rough)

Não é que sejas inesquecível mas como é que se esquece que o meu maior amor foi uma fraude?

(E como é que se perdoa alguém que conseguiu transformar o que de melhor havia em mim em vergonha e náuseas?)

 

Continuo a ser emocionalmente diplomática mas há acordos de paz que só se alcançam através de palavras duras portanto vai-te foder. É frustrante que me tenhas tirado 10 anos da minha vida portanto imagino que seja pior teres de conviver contigo há (quase) 29 anos. E não te desejo mal, não: desejo-te autenticidade porque se não é para seres o que dizes ser ou queres ser, então não vales nada. E a forma como eu amo as pessoas que passaram, passam ou passarão na minha vida vale tudo. Amei-te (mas vai-te foder!). 

Afinal não fui a um bar, fui mesmo a um consultório

No complexo universo das bactérias da alma, regresso com fotos e emoções. Sinto que estou em processo de queijo, deixando as bactérias alimentarem-se de mim num ambiente controlado de forma a adquirir a textura e sabores ideais, únicos e dignos da minha complexidade. É um processo complicado, nem sempre bonito e nem sempre cheira bem, nem sempre é iluminado e nem sempre é saboroso mas, na imprevisibilidade do que sou e posso vir a ser, tenho a certeza de uma coisa: sou um queijo em processo de cura (e, cá entre nós, à espera de ser apreciada e devorada, que queijo é bom e eu também! *pausa para risos, afaguem-me a auto-estima*).

 

Mas também posso ser o musgo que cresce na pedra.... e às vezes nas árvores.

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 (foto tirada em Galway, na Irlanda, em Outubro de 2017)

Ou o barco que me leva para fora daqui, que me dá transporte e ao mesmo tempo abrigo no mar da vida.

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 (Foto tirada na Serra da Arrábida há uns dias)

Posso ser isso tudo. 

Posso ser conversas, conclusões e cervejas.

Afinal ir a um bar ou a um consultório é algo que me sabe bem.

Só queria que servissem queijo em ambos os lugares também...

No quiero escaparates: quiero la vida entera.

Na casualidade da vida nada em mim é por acaso. Mais importante: ninguém comigo o é por acaso. Entre armaduras e recrutamentos, tenho mais dedos numa mão do que pessoas a quem dei permissão para passarem o muro. 

Não é justo que me resuma às circunstâncias para justificar essas entradas. Se circunstancialmente me sinto resumida, sinopse de uma alma, um par de frases sobre o meu coração, então recuso a minha plenitude. Se sou a personificação da demasia, então que o seja - mas eu plena é que não me recuso mais.

Por mais solitário que seja, sei tanto indicar a entrada quanto a saída.

E prefiro ser sozinha do que resumida.