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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Afinal não fui a um bar, fui mesmo a um consultório

No complexo universo das bactérias da alma, regresso com fotos e emoções. Sinto que estou em processo de queijo, deixando as bactérias alimentarem-se de mim num ambiente controlado de forma a adquirir a textura e sabores ideais, únicos e dignos da minha complexidade. É um processo complicado, nem sempre bonito e nem sempre cheira bem, nem sempre é iluminado e nem sempre é saboroso mas, na imprevisibilidade do que sou e posso vir a ser, tenho a certeza de uma coisa: sou um queijo em processo de cura (e, cá entre nós, à espera de ser apreciada e devorada, que queijo é bom e eu também! *pausa para risos, afaguem-me a auto-estima*).

 

Mas também posso ser o musgo que cresce na pedra.... e às vezes nas árvores.

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 (foto tirada em Galway, na Irlanda, em Outubro de 2017)

Ou o barco que me leva para fora daqui, que me dá transporte e ao mesmo tempo abrigo no mar da vida.

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 (Foto tirada na Serra da Arrábida há uns dias)

Posso ser isso tudo. 

Posso ser conversas, conclusões e cervejas.

Afinal ir a um bar ou a um consultório é algo que me sabe bem.

Só queria que servissem queijo em ambos os lugares também...

or another

Estou há cinco meses em casa. Vá, de vez em quando saio, no outro dia até fui despejar o lixo e acabei a voar contra o caixote portanto nem tudo é aborrecido.

 

Quando me despedi, achava genuinamente que viajar seria a solução dos meus problemas. Afinal sempre vim melhor de todas as viagens que fiz. Quem não vem? Entretanto percebi que estava errada. Os problemas, se não os resolver, hão-de estar comigo aonde quer que eu vá ou fique: Setúbal, Irlanda ou Marte.
Parei o carro e avaliei de novo a estrada. "Ok, se calhar o caminho agora é outro". Tive um grande acidente pelo caminho e outros menos graves mas já estou a recuperar. Voltei a pegar no volante e, numa corrida contra o preço do gasóleo, vou planeando novos rumos - e rumos certos - e espreitando novas perspectivas pela janela.

 

Sei bem o que não quero. Sei que não quero voltar para um trabalho de merda que me ocupava os dias e não me estimulava a mente. Sei que não quero viver uma vida a meias e sendo menos de tudo o que sou capaz de ser. Sei que não quero - nem vou - contentar-me com as poucas opções precárias que me parecem restar porque não tenho diplomas. Talvez precise de diplomas para me tornar sô doutora (se bem que tenho 14 temporadas de Anatomia de Grey em cima, chupa essa, Faculdade de Medicina! Mas não se preocupem) mas não preciso de diplomas para contar histórias - só de coração e algum jeito para a coisa.

 

Nada me garante sucesso mas não tentar garante, sem dúvida, fracasso. E falhar de vez em quando não é vergonhoso e há-de acontecer, naturalmente. Hei-de ganhar mais cicatrizes mas não me envergonho daquelas que já tenho. Hei-de ter mais acidentes mas à beira da estrada é que não fico. É que se não é para crescer, mudar, seguir caminho e desbravar novas direcções, então mais valia ter ficado naquela linha de comboio há uns anos atrás. Mas não fiquei. Agora é altura de lutar pelos meus sonhos porque lutar por eles é lutar por mim. É altura de apanhar o comboio em direcção à vida em vez de me deitar, desistente, e vê-lo passar por cima de mim.

 

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 ( IRLANDA EM OUTUBRO DE 2017)

 

Um pôr-do-sol arco-íris em Dublin

Na minha segunda vez em Dublin, em Outubro de 2017, e já conhecendo de cor quase todas as ruas e pontes da cidade, voltei ao hostel para descansar um pouco antes de me ir embora. Ao voltar pela ponte O'Connell, uma das tantas e a talvez a mais larga que atravessa o rio Liffey, entre carros e pessoas lá estava uma bandeira arco-íris. Obviamente que tive que me aproximar. De tanto quererem que tenha vergonha de mim, o meu orgulho em ser quem sou só cresce.

Mas, enfim, lá me aproximei e vi que era uma mesinha de venda. Tinha bonés e meias e música e isqueiros e pilhas e copos e coisas aleatórias em monte, sabe-se lá o que é que uma pessoa precisa quando atravessa a ponte. Eu cá só precisava de uma bandeira arco-íris. Há anos que queria comprar mas mesmo na internet eram caras e o mais perto que cheguei disso foi um conjunto de diversos pins arco-íris e feministas que eu mesma fiz quando vivi em Espanha (privilégios de ter uma máquina dessas no trabalho!).

 

 

Então perguntei à senhora e ao senhor que lá estavam, duas pessoas velhotas adoráveis, quanto era a bandeira. Entre os 10 euros que custava e os 2 e pouco que eu tinha comigo na altura, tive que ir levantar dinheiro mas não sem antes fazer com que a senhora e o senhor prestassem um juramento de como aquela bandeira, a única que tinham, iria esperar por mim apenas. Foi tudo muito engraçado, ele ria-se e ela olhava para mim como uma mãe que vê a filha super contente com algo. E é normal porque eu estava realmente ao pulinhos. Então desatei a correr para o multibanco mais próximo, a amaldiçoar os sinais vermelhos daquele cruzamento enorme, carros de todos os lados e eu só queria ir numa direcção. Quando voltei com o dinheiro e já tinha a bandeira na minha posse, os meus olhos brilhavam. E devem ter reparado, porque ficámos a falar de como a bandeira era bonita e de outras coisas que surgiram daí. 

 

Depois dessa conversa, fui dar mais uma volta pela cidade. Dublin é especialmente bonita ao pôr-do-sol e o pôr-do-sol também é especialmente bonito em Dublin. E toda essa caminhada foi feita de bandeira na mão, uma bandeira do meu tamanho, eu era um arco-íris ambulante nas margens do rio Liffey. Há poucas coisas mais especiais do que sermos nós próprias nas ruas que adoramos, especialmente ao pôr-do-sol.

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