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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Já alguma vez viste chuva num dia de sol?

Saí de casa a correr. Nem com pressa nem com raiva nem com medo. Desatei a correr com a Joan Jett nos meus ouvidos, abençoada seja. Parei muito antes de onde viria a ficar sentada a observar, lá do alto, a Arrábida, o Sado, Tróia e a minha paz, porque não tenho a resistência de gente fitness. Uma vez lá em cima levei com sol no focinho e levei com chuva também enquanto ela me perguntava, repetidamente, se alguma vez tinha visto chuva num dia de sol. "Sempre vi", respondi-lhe, "mas agora ando a aprender a ver o meu sol em dias de chuva"

 

No regresso a casa, caminhando, pensava no que tinha escrito na noite anterior. Deve ser da minha lua em leão mas tenho tendência a sofrer mais de um ego fodido do que de um coração partido. O que é bom, atenção: assim com alguma reflexão e maturidade depressa deixa de doer. Se não é do coração, não me importa e se não me importa não vale o meu tempo nem a minha energia. 

Tranquila com a conclusão, meti-me no duche. A pele escaldava mas nada mais me doía. 

 

Sentei-me no sofá com o computador nas pernas. Se eu fumasse sacava de um cigarro. Como não fumo, agarrei na chávena mas estava muito quente. Esperei que o chá arrefecesse. E enquanto esperava e tentava decidir que série ou filme havia de ver, recebi uma mensagem tua. As palavras de sempre. 

Mas epá, desta vez não te respondo. 

Serei lésbica a sério ou não?

​Os estereótipos têm tanto de engraçados como de exasperantes. Mas como ainda estou às gargalhadas com este post da Desconhecida, decidi rir-me um pouco da minha falta de pinta para o estereótipo de uma lésbica a sério.
 

 

 
1. Não gosto de futebol
Nem de desporto no geral. Já gostei e fui muito boa mas ao longo do tempo fui perdendo o interesse por bolas. 
 
2. O meu cabelo cresce
Há cerca de um mês e tal rapei-o todo mas isso aconteceu porque me passei dos cornos num episódio depressivo, não porque quis afirmar a minha orientação sexual. Normalmente a única coisa curta na minha cabeça é a paciência. 
 

 
3. Não tenho nenhum strap-on
E mandei o meu vibrador para o lixo sem querer. Ainda estou traumatizada. 
 
4. De vez em quando pinto as unhas
Mas também as corto! E agora em que ficamos? Toda a gente sabe que, na dúvida, as unhas denunciam o tipo de pessoa. Especialmente quando faço o dedo do meio. 
 
5. Nunca vi The L Word 
Juro. E vejo montes de séries. Em quase todas elas as lésbicas, se existirem, morrem ou acabam infelizes.
 

 
6. Não sou vegetariana.
Mas isso não quer dizer que não goste de grelos. 
 

 
Mas eu tenho um gato. Já tive outro. Não uso saias. Nem maquilhagem. Tenho piercings e tatuagens e pareço saída de um concerto de rock/moto/de uma sessão de beijinhos com a Joan Jett. Quem me dera ter saído de uma sessão de beijinhos com a Joan Jett. E tenho inveja de pilinhas, sim, já viram o jeito que dão para mijar? É, devo ser fufa mesmo. 
 

 

O calendário das emoções

Há um par de semanas estava a conversar com uma pessoa sobre as mais variadas coisas até que, a determinada altura, mencionei uma pessoa por quem estive enamorada ao longo de 10 anos. Mais tempo, menos tempo, acrescentei. E desde então que tenho questionado a formação da linha temporal das emoções e relações.

 

Ainda no outro dia estava a ver um episódio de Modern Family em que, numa referência a um filme, uma personagem parte o relógio e diz "Quero recordar o exacto momento em que voltei a apaixonar-me por ti.". E fiquei a pensar que realmente, no meu caso, consigo apontar um ano - 2007 - mas não consigo apontar uma data exacta para o momento em que me apaixonei. Parece que sempre foi algo que esteve comigo mas efectivamente não porque antes de 2007 isso não aconteceu, logicamente. E o mesmo acontece com o final: não consigo apontar o momento em que deixei de estar enamorada. Então como posso dizer que foram 10 anos, mais tempo, menos tempo? Porque foram. E porque foi um processo emocional e mental que não envolveu apenas uma emoção romântica mas toda uma conexão além disso e a sua respectiva complexidade (e consequências). E tanto envolveu uma parte abstracta como uma parte mais concreta. Entre sentimentos, palavras, decisões e actos, isto durou 10 anos. Mais tempo, menos tempo. 

 

Há marcos na vida das pessoas a partir dos quais se pode iniciar uma trajectória temporal mais específica, traduzidos em aniversários a partir de ali. Um namoro ou um casamento, por exemplo. Um nascimento. Até algumas amizades. Mas não foi nesse dia que as emoções começaram a existir. Uma celebração de 21 anos de qualquer coisa não é necessariamente um indicador da existência de 21 anos de emoções associadas a isso mesmo e às pessoas envolvidas. Então como é que se comemora o "aniversário" de algo que sentimos? A única conclusão à qual consigo chegar é: sem prender os sentimentos nos ponteiros de um relógio ou limitá-los a um quadrado no calendário. Com o coração.

Consentir é que é romântico, ok

Um ano destes fui ao Queer Lisboa, um festival de cinema especificamente lgbt*, e durante um dos filmes que estava a ver houve uma cena de um beijo inesperado/forçado. Lembro-me de na altura ter comentado, indignada, "mas ela nem pergunta se a pode beijar?!", questão à qual uma das pessoas que com quem eu tinha ido me responde, como se eu fosse uma parola que não percebesse nada daquilo, que "estas coisas não se perguntam, assim mata o romantismo". 

O romantismo, o maldito romantismo. Na urgência de o manter vivo, a romantização deste tipo de comportamentos mata. Pode não ser na hora e pode não ser de uma forma física: mas mata e contribui para a matança da auto-determinação de cada pessoa, entre outras mortes mais orgânicas  e permanentes.  

 

Lembra-me sempre aquela história que eu li algures sobre uma discussão entre um casal em que ele a cala com um beijo. Era uma cena específica qualquer de um filme mas é uma cena generalizada cá fora, já sabemos. Felizmente já se vai falando disso e já se vai desconstruindo a romantização destes gestos sexistas sobre a mulher - ainda que, infelizmente, se perpetuem. Mas e entre pessoas do mesmo sexo e/ou género?

 

Quando eu tinha cerca de 15 anos, conheci uma rapariga, enfim, o normal na adolescência. Uns beijinhos que não pedi aqui e umas mãos à força toda por ali. Muito romântico, sem dúvida. Só recentemente cheguei ao entendimento de que isto não foi apenas uma anulação do meu direito a consentir como foi, também, um abuso sexual. Mas tudo bem, a moça era uma moça, não um moço, e gostava de mim portanto ela não fez por mal, pois não? Não é como se tivesse sido mesmo grave, não é? Que parvoíce a minha de querer que ela me tivesse perguntado antes, eu a estragar o clima, nem sensível nem romântica, ó Samantha.

 

Essa história de matar o romantismo não é apenas uma grande treta, é perigosa. Há várias maneiras de perguntar sem ser de forma verbal para não estragar o clima. Há várias maneiras de o fazer verbalmente e ainda assim não estragar o clima. Agora o que não há é uma maneira que seja romântica que implique não ter o consentimento, seja de que forma for, da outra pessoa. Isso não há. Mesmo entre mulheres. 

 

*lésbicas, gays, bissexuais e trans (transgéneros e transexuais)