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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Serei lésbica a sério ou não?

​Os estereótipos têm tanto de engraçados como de exasperantes. Mas como ainda estou às gargalhadas com este post da Desconhecida, decidi rir-me um pouco da minha falta de pinta para o estereótipo de uma lésbica a sério.
 

 

 
1. Não gosto de futebol
Nem de desporto no geral. Já gostei e fui muito boa mas ao longo do tempo fui perdendo o interesse por bolas. 
 
2. O meu cabelo cresce
Há cerca de um mês e tal rapei-o todo mas isso aconteceu porque me passei dos cornos num episódio depressivo, não porque quis afirmar a minha orientação sexual. Normalmente a única coisa curta na minha cabeça é a paciência. 
 

 
3. Não tenho nenhum strap-on
E mandei o meu vibrador para o lixo sem querer. Ainda estou traumatizada. 
 
4. De vez em quando pinto as unhas
Mas também as corto! E agora em que ficamos? Toda a gente sabe que, na dúvida, as unhas denunciam o tipo de pessoa. Especialmente quando faço o dedo do meio. 
 
5. Nunca vi The L Word 
Juro. E vejo montes de séries. Em quase todas elas as lésbicas, se existirem, morrem ou acabam infelizes.
 

 
6. Não sou vegetariana.
Mas isso não quer dizer que não goste de grelos. 
 

 
Mas eu tenho um gato. Já tive outro. Não uso saias. Nem maquilhagem. Tenho piercings e tatuagens e pareço saída de um concerto de rock/moto/de uma sessão de beijinhos com a Joan Jett. Quem me dera ter saído de uma sessão de beijinhos com a Joan Jett. E tenho inveja de pilinhas, sim, já viram o jeito que dão para mijar? É, devo ser fufa mesmo. 
 

 

Consentir é que é romântico, ok

Um ano destes fui ao Queer Lisboa, um festival de cinema especificamente lgbt*, e durante um dos filmes que estava a ver houve uma cena de um beijo inesperado/forçado. Lembro-me de na altura ter comentado, indignada, "mas ela nem pergunta se a pode beijar?!", questão à qual uma das pessoas que com quem eu tinha ido me responde, como se eu fosse uma parola que não percebesse nada daquilo, que "estas coisas não se perguntam, assim mata o romantismo". 

O romantismo, o maldito romantismo. Na urgência de o manter vivo, a romantização deste tipo de comportamentos mata. Pode não ser na hora e pode não ser de uma forma física: mas mata e contribui para a matança da auto-determinação de cada pessoa, entre outras mortes mais orgânicas  e permanentes.  

 

Lembra-me sempre aquela história que eu li algures sobre uma discussão entre um casal em que ele a cala com um beijo. Era uma cena específica qualquer de um filme mas é uma cena generalizada cá fora, já sabemos. Felizmente já se vai falando disso e já se vai desconstruindo a romantização destes gestos sexistas sobre a mulher - ainda que, infelizmente, se perpetuem. Mas e entre pessoas do mesmo sexo e/ou género?

 

Quando eu tinha cerca de 15 anos, conheci uma rapariga, enfim, o normal na adolescência. Uns beijinhos que não pedi aqui e umas mãos à força toda por ali. Muito romântico, sem dúvida. Só recentemente cheguei ao entendimento de que isto não foi apenas uma anulação do meu direito a consentir como foi, também, um abuso sexual. Mas tudo bem, a moça era uma moça, não um moço, e gostava de mim portanto ela não fez por mal, pois não? Não é como se tivesse sido mesmo grave, não é? Que parvoíce a minha de querer que ela me tivesse perguntado antes, eu a estragar o clima, nem sensível nem romântica, ó Samantha.

 

Essa história de matar o romantismo não é apenas uma grande treta, é perigosa. Há várias maneiras de perguntar sem ser de forma verbal para não estragar o clima. Há várias maneiras de o fazer verbalmente e ainda assim não estragar o clima. Agora o que não há é uma maneira que seja romântica que implique não ter o consentimento, seja de que forma for, da outra pessoa. Isso não há. Mesmo entre mulheres. 

 

*lésbicas, gays, bissexuais e trans (transgéneros e transexuais)

As cores expostas das conexões

Perguntou-me se era dupla exposição ou um jogo de cores. "A fotografia está excelente", disse-me. Não lhe soube responder. Não sei o nome das coisas porque nunca pude tirar nenhum curso de fotografia. Nunca pude tirar um curso de nada que me interessasse porque a parte técnica do que me move a alma tem um preço e eu nunca pude pagar esse preço. Portanto não sei se é dupla exposição ou jogo de cores, apenas brinquei com a máquina com o mínimo que sei para as fotografias não me saírem totalmente a preto (ou a branco). E talvez ela não esteja excelente como o elogio sugeriu mas, depois de me ter desfeito de todo o cabelo, é a única fotografia minha à qual me consigo conectar. Um auto-retrato onde me desfaço, desfeita me evaporo colorida em cada poro.

Não sei se é dupla exposição ou jogo de cores, só sei que são mamilos estranhos não conectados.

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("UNCONNECTED QUEER NIPPLES"SETEMBRO DE 2017)

Um pôr-do-sol arco-íris em Dublin

Na minha segunda vez em Dublin, em Outubro de 2017, e já conhecendo de cor quase todas as ruas e pontes da cidade, voltei ao hostel para descansar um pouco antes de me ir embora. Ao voltar pela ponte O'Connell, uma das tantas e a talvez a mais larga que atravessa o rio Liffey, entre carros e pessoas lá estava uma bandeira arco-íris. Obviamente que tive que me aproximar. De tanto quererem que tenha vergonha de mim, o meu orgulho em ser quem sou só cresce.

Mas, enfim, lá me aproximei e vi que era uma mesinha de venda. Tinha bonés e meias e música e isqueiros e pilhas e copos e coisas aleatórias em monte, sabe-se lá o que é que uma pessoa precisa quando atravessa a ponte. Eu cá só precisava de uma bandeira arco-íris. Há anos que queria comprar mas mesmo na internet eram caras e o mais perto que cheguei disso foi um conjunto de diversos pins arco-íris e feministas que eu mesma fiz quando vivi em Espanha (privilégios de ter uma máquina dessas no trabalho!).

 

 

Então perguntei à senhora e ao senhor que lá estavam, duas pessoas velhotas adoráveis, quanto era a bandeira. Entre os 10 euros que custava e os 2 e pouco que eu tinha comigo na altura, tive que ir levantar dinheiro mas não sem antes fazer com que a senhora e o senhor prestassem um juramento de como aquela bandeira, a única que tinham, iria esperar por mim apenas. Foi tudo muito engraçado, ele ria-se e ela olhava para mim como uma mãe que vê a filha super contente com algo. E é normal porque eu estava realmente ao pulinhos. Então desatei a correr para o multibanco mais próximo, a amaldiçoar os sinais vermelhos daquele cruzamento enorme, carros de todos os lados e eu só queria ir numa direcção. Quando voltei com o dinheiro e já tinha a bandeira na minha posse, os meus olhos brilhavam. E devem ter reparado, porque ficámos a falar de como a bandeira era bonita e de outras coisas que surgiram daí. 

 

Depois dessa conversa, fui dar mais uma volta pela cidade. Dublin é especialmente bonita ao pôr-do-sol e o pôr-do-sol também é especialmente bonito em Dublin. E toda essa caminhada foi feita de bandeira na mão, uma bandeira do meu tamanho, eu era um arco-íris ambulante nas margens do rio Liffey. Há poucas coisas mais especiais do que sermos nós próprias nas ruas que adoramos, especialmente ao pôr-do-sol.

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