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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma lésbica passada dos cornos e meio anti-social

10 coisas que fiz no verão passado (sim, este de 2018)

Podia responsabilizar a dESarrumada por me desafiar a fazer isto quando o verão (finalmente!) estava a terminar, mas vou agradecer e aproveitar para regressar aqui ao blog e contar-vos onde e por que motivo andei desaparecida! Ninguém quer saber, Samantha...

 

1 - Quase morri. Sei que muita gente vai entrar em estado de depressão sazonal a partir dos próximos tempos, mas esse fenómeno acontece-me durante o verão. É, para mim, a pior altura do ano, é grave e as tendências para pôr termo à vida são muito fortes, especialmente com montes de planetas retrógrados (vá, a piada astrológica, mas eu guio-me por isto!), mas sobrevivi e os próximos pontos são mais positivos!

 

2 - Mudei de cidade. Coisa tipo à filme, logo no primeiro dia um alívio descomunal onde várias portas se abriram. Foi a semana passada, ando a racionar a comida (se alguém passar por Almada e me quiser deixar alguma comida, agradeço!) para me aguentar no próximo par de meses enquanto ando na formação e/ou encontro trabalho, mas de resto estou finalmente a ficar bem. Mas antes...

 

3 - regressei à Irlanda, onde planeava fazer uma viagem de (pelo menos) um mês e usar a plataforma workaway para estender a viagem, conhecer pessoas e aprender novas coisas. Enfim, para acabar com esta nuvem negra que me assola constantemente. As coisas não correram bem. Fiquei cerca de 10 dias, mas conheci um sítio espectacular digno de outro mundo embora seja neste e ainda, no meu pior momento, pude finalmente contar com alguém embora à distância de um telefonema mas o suficiente para sentir que há quem me queira bem e que posso desenvolver relacionamentos bonitos e saudáveis. E isto só foi possível porque...

 

4 - neste verão também desenvolvi uma amizade bonita e descomplexada... com a minha psicóloga! Acho que estava destinado. A nossa (pronome carinhoso, não possessivo) Joana vai ao médico e encontra o Pedro, eu vou à psicóloga e (re)encontro a C., portanto moral da história: cuidar da saúde, física e mental, é importante e dá resultados positivos!

 

5 - Voltei ao postcrossing. Que saudades de escrever, enviar e receber postais e cartas de todas as partes do mundo, de pessoas tão diferentes e sempre com alguma história para contar! (Se quiserem que vos envie um postal, podem ver aqui como o fazer)

 

6 - Papei Star Trek à grande. Adoro Star Trek e toda a utopia que representa. Vi a série original dos anos 60, vi a série animada que veio a seguir e agora estou nos filmes com o elenco original. Ainda assim nada me bate a primeira que vi o ano passado: Star Trek: Voyager (dos anos 90)!

 

7 - Fui burlada pela escola de condução. Eu e uma data de pessoas. Adoro, até sou ricaça para andar a perder 350 euros assim... devem ter visto nas notícias (foi assim que eu soube, estava na Irlanda na altura). 

 

8 - Concretizei o sonho de ter uma bicicleta! Aliás, concretizaram. A antes-psicóloga-agora-amiga deu-me um bicicleta que tinha lá para casa inutilizada após eu ter dito que sempre quis ter uma mas a vida nunca me deu para isso. Tenho andado no céu-que-é-o-chão com ela nos últimos tempos!

 

9 - Fui para o tinder para tentar conhecer moças, é que caso não tenham reparado estou em chamas, mas não resultou. Não faz parte do meu feitio. O que me vale é que gosto de gatos e a possibilidade futura de acabar a viver com eles aos 70 anos não me desagrada.

 

10 - Fiz uma aula de Kung Fu! Há anos que queria experimentar e, nesta nova cidade, isso foi possível. Infelizmente não vou continuar por agora por questões monetárias mas hei-de lá voltar! Estou toda desengonçada mas, segundo o professor, as minhas articulações são mesmo boas, fortes e resistentes. O senhor estava fascinado. Se calhar uma das coisas que devia fazer este outono é voltar ao tinder e dizer a alguém "ó moça, olha, ando a reestruturar a minha vida e não tenho dinheiro nem carro nem um trabalho de jeito neste momento mas as minhas articulações são mesmo boas e aprovadas por um mestre de Kung Fu!". Acham que resulta? Incorporar o meu Jackie Chan interior para dar uma tareia à solidão... 

 

Não há regras no desafio porque ele expirou e porque o próprio verão foi, em si, um grande desafio. Mas a primeira coisa que fiz este Outono, a estação que sempre me foi casa, foi sentir-me grata por ter tido a oportunidade de o ultrapassar. Pressinto coisas boas, finalmente. Não quero agourar e espero não estar errada, mas é que mereço mesmo. E ando com uma fome de vida que não sentia há anos... olá de novo!

Espelho meu, espelho meu, que será de mim se eu não for eu?

Entre demasias e insuficiências e as palavras que mercúrio não me deixa pronunciar em condições nos últimos dias, o que me vale é que já me consigo olhar de novo ao espelho, sem vergonhas do que sou ou do que sinto. E não há nada que valha mais do que isso, ainda que a alma se canse.

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Ninguém é melhor pessoa por associação

Há uns dias, um bocadinho ferida, eu disse a alguém que "só porque te dás com pessoas de espírito livre e boas pessoas, isso não te torna uma dessas pessoas por associação", mais coisa, menos coisa. É que não importa fazer apenas umas rastas no cabelo e fazer o sinal da paz com a mão ou, no caso de activistas (não me esqueci...), escrever determinados textos, para ser uma melhor versão de nós mesmas. Eu honestamente acho que, no geral, cada qual faz o melhor que pode com as ferramentas que tem, mas existe uma diferença entre querer seguir um caminho diferente e em continuar a causar, de forma consciente, acidentes pelo caminho. E se para mim é fácil respeitar a necessidade de alguém de seguir num carro onde eu não estou, é impossível não buzinar quando esse mesmo carro vem, de novo, de encontro ao meu. 

 

No outro dia alguém disse «Não se trata de persuadir as pessoas de que irás fazer algo grandioso: trata-se de o fazer.» numa das séries que vejo. De certa forma encaixou na situação do parágrafo anterior, embora num sentido diferente, e também no que me disse uma pessoa que conheço quando estivemos a passear e a conversar lá por Coimbra e arredores. Dizia ela que "o que quer que façamos temos que fazer por nós", algo assim do género. E eu concordo. É uma frase que me ficou na cabeça e que vem sempre ao de cima enquanto tento orientar a minha vida ultimamente. E também veio ao de cima quando a situação do primeiro parágrafo ocorreu. É que fazer o melhor que se pode e fazê-lo por nós mesmas não pode ser justificação para comportamentos tóxicos, mais ainda quando esses comportamentos se repetem e repetem durante anos. Os regressos com perdões na boca e rastas sabe-se lá onde perdem a validade se forem apenas descargos de consciência - e eu não sou nenhum autoclismo papal. Quem quiser perdão que procure dentro de si e quem quiser ser a melhor versão de si então que pare de o dizer e que seja (ou tente ser, pelo menos!). É isso que tento fazer também.

A loucura da hipocrisia

No ano que passei em Espanha, trabalhei numa associação para pessoas com algum tipo de doença ou distúrbio mental. A maioria estava diagnosticada com esquizofrenia mas outros diagnósticos também se passeavam por lá. Uma cambada de loucos, por assim dizer. 

No meio de tanta arte e coisas boas e humanas que fazíamos por lá, a merda da hipocrisia e das aparências de vez em quando dava sinais de vida. De vez em quando a directora e as outras pessoas que geriam a fundação atrás de secretárias transformavam o centro de dia, o local onde trabalhávamos, numa espécie de jardim zoológico elitista. Nessas alturas vinham as mais variadas pessoas de fato e gravata, entre outras fatiotas janotas, "visitar-nos": mas não era bem uma visita, era mais uma ocupação de espaço para uma festa de sorriso falsos e de falsa preocupação médica pelos alienados. Não se falava com os loucos nem com as loucas mas falava-se da importância de arranjar fundos para apoiar a loucura... de ser imbecil num patamar social, só podia. Se em todos os outros dias os pacientes comiam comida de merda e quase sempre a mesma todos os dias (abençoadas lentilhas), nessas alturas continuavam a comer comida de merda... mas mais tarde, para que os pijos (insulto espanhol para gente ricaça com a mania) não vissem essa desgraça! Que horror! 

 

Há um par de semanas li «O Alienista» de Machado de Assis. Sem entrar em muitos detalhes para evitar estragar a história, a loucura e a sanidade são os temas centrais e bailam numa linha ténue que atravessa os comportamentos humanos e os relacionamentos sociais. É um livro maravilhoso com um tom humorístico que se lê bem num dia ou dois e, por isso, deixo a sugestão. 

Enquanto estava a ler o livro as memórias transportaram-me para vários momentos que vivi em Espanha. Uns mais trágicos, outros mais engraçados. A reflexão sobre o que pode ser considerado (ou não!) loucura depressa fez surgir uma memória muito específica:

O Manu, esquizofrénico, a abanar a cabeça no meio de todo aquele circo de pijos hipócritas e a dizer (em espanhol)

"Isto é de loucos!"

 

E era mesmo. Mas a hipocrisia não se medica. 

 

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 (Imagem daqui. Não é um original da Mafaldinha mas é algo que ela diria. E eu também.)

or another

Estou há cinco meses em casa. Vá, de vez em quando saio, no outro dia até fui despejar o lixo e acabei a voar contra o caixote portanto nem tudo é aborrecido.

 

Quando me despedi, achava genuinamente que viajar seria a solução dos meus problemas. Afinal sempre vim melhor de todas as viagens que fiz. Quem não vem? Entretanto percebi que estava errada. Os problemas, se não os resolver, hão-de estar comigo aonde quer que eu vá ou fique: Setúbal, Irlanda ou Marte.
Parei o carro e avaliei de novo a estrada. "Ok, se calhar o caminho agora é outro". Tive um grande acidente pelo caminho e outros menos graves mas já estou a recuperar. Voltei a pegar no volante e, numa corrida contra o preço do gasóleo, vou planeando novos rumos - e rumos certos - e espreitando novas perspectivas pela janela.

 

Sei bem o que não quero. Sei que não quero voltar para um trabalho de merda que me ocupava os dias e não me estimulava a mente. Sei que não quero viver uma vida a meias e sendo menos de tudo o que sou capaz de ser. Sei que não quero - nem vou - contentar-me com as poucas opções precárias que me parecem restar porque não tenho diplomas. Talvez precise de diplomas para me tornar sô doutora (se bem que tenho 14 temporadas de Anatomia de Grey em cima, chupa essa, Faculdade de Medicina! Mas não se preocupem) mas não preciso de diplomas para contar histórias - só de coração e algum jeito para a coisa.

 

Nada me garante sucesso mas não tentar garante, sem dúvida, fracasso. E falhar de vez em quando não é vergonhoso e há-de acontecer, naturalmente. Hei-de ganhar mais cicatrizes mas não me envergonho daquelas que já tenho. Hei-de ter mais acidentes mas à beira da estrada é que não fico. É que se não é para crescer, mudar, seguir caminho e desbravar novas direcções, então mais valia ter ficado naquela linha de comboio há uns anos atrás. Mas não fiquei. Agora é altura de lutar pelos meus sonhos porque lutar por eles é lutar por mim. É altura de apanhar o comboio em direcção à vida em vez de me deitar, desistente, e vê-lo passar por cima de mim.

 

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 ( IRLANDA EM OUTUBRO DE 2017)

 

É contando histórias que eu faço a minha

Pego num livro, leio umas páginas e paro. Pego noutro, leio mais umas quantas e volto a parar. Apetecem-me histórias mas nenhuma destas me apetece agora. Volto a pegar noutro, talvez esta já resulte. ​Afinal não. Ao lado a minha câmara fotográfica. "O que é que vou fazer contigo?", penso eu. E sei. Uma data de coisas. Tenho ideias fantásticas e vários projectos em mente. Então volto a questionar mas desta vez é um quando e um como em vez do quê. E então percebo: apetecem-me histórias, sim, mas contá-las. Histórias "minhas" ainda que sejam histórias de outras pessoas. Descobri-las. Expressá-las. Registá-las nas fotografias que tiro e nas palavras que escrevo. Acho que é desta. Ainda bem que não me desfiz da máquina. 

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