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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

Espelho meu, espelho meu, que será de mim se eu não for eu?

Entre demasias e insuficiências e as palavras que mercúrio não me deixa pronunciar em condições nos últimos dias, o que me vale é que já me consigo olhar de novo ao espelho, sem vergonhas do que sou ou do que sinto. E não há nada que valha mais do que isso, ainda que a alma se canse.

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Ninguém é melhor pessoa por associação

Há uns dias, um bocadinho ferida, eu disse a alguém que "só porque te dás com pessoas de espírito livre e boas pessoas, isso não te torna uma dessas pessoas por associação", mais coisa, menos coisa. É que não importa fazer apenas umas rastas no cabelo e fazer o sinal da paz com a mão ou, no caso de activistas (não me esqueci...), escrever determinados textos, para ser uma melhor versão de nós mesmas. Eu honestamente acho que, no geral, cada qual faz o melhor que pode com as ferramentas que tem, mas existe uma diferença entre querer seguir um caminho diferente e em continuar a causar, de forma consciente, acidentes pelo caminho. E se para mim é fácil respeitar a necessidade de alguém de seguir num carro onde eu não estou, é impossível não buzinar quando esse mesmo carro vem, de novo, de encontro ao meu. 

 

No outro dia alguém disse «Não se trata de persuadir as pessoas de que irás fazer algo grandioso: trata-se de o fazer.» numa das séries que vejo. De certa forma encaixou na situação do parágrafo anterior, embora num sentido diferente, e também no que me disse uma pessoa que conheço quando estivemos a passear e a conversar lá por Coimbra e arredores. Dizia ela que "o que quer que façamos temos que fazer por nós", algo assim do género. E eu concordo. É uma frase que me ficou na cabeça e que vem sempre ao de cima enquanto tento orientar a minha vida ultimamente. E também veio ao de cima quando a situação do primeiro parágrafo ocorreu. É que fazer o melhor que se pode e fazê-lo por nós mesmas não pode ser justificação para comportamentos tóxicos, mais ainda quando esses comportamentos se repetem e repetem durante anos. Os regressos com perdões na boca e rastas sabe-se lá onde perdem a validade se forem apenas descargos de consciência - e eu não sou nenhum autoclismo papal. Quem quiser perdão que procure dentro de si e quem quiser ser a melhor versão de si então que pare de o dizer e que seja (ou tente ser, pelo menos!). É isso que tento fazer também.

A loucura da hipocrisia

No ano que passei em Espanha, trabalhei numa associação para pessoas com algum tipo de doença ou distúrbio mental. A maioria estava diagnosticada com esquizofrenia mas outros diagnósticos também se passeavam por lá. Uma cambada de loucos, por assim dizer. 

No meio de tanta arte e coisas boas e humanas que fazíamos por lá, a merda da hipocrisia e das aparências de vez em quando dava sinais de vida. De vez em quando a directora e as outras pessoas que geriam a fundação atrás de secretárias transformavam o centro de dia, o local onde trabalhávamos, numa espécie de jardim zoológico elitista. Nessas alturas vinham as mais variadas pessoas de fato e gravata, entre outras fatiotas janotas, "visitar-nos": mas não era bem uma visita, era mais uma ocupação de espaço para uma festa de sorriso falsos e de falsa preocupação médica pelos alienados. Não se falava com os loucos nem com as loucas mas falava-se da importância de arranjar fundos para apoiar a loucura... de ser imbecil num patamar social, só podia. Se em todos os outros dias os pacientes comiam comida de merda e quase sempre a mesma todos os dias (abençoadas lentilhas), nessas alturas continuavam a comer comida de merda... mas mais tarde, para que os pijos (insulto espanhol para gente ricaça com a mania) não vissem essa desgraça! Que horror! 

 

Há um par de semanas li «O Alienista» de Machado de Assis. Sem entrar em muitos detalhes para evitar estragar a história, a loucura e a sanidade são os temas centrais e bailam numa linha ténue que atravessa os comportamentos humanos e os relacionamentos sociais. É um livro maravilhoso com um tom humorístico que se lê bem num dia ou dois e, por isso, deixo a sugestão. 

Enquanto estava a ler o livro as memórias transportaram-me para vários momentos que vivi em Espanha. Uns mais trágicos, outros mais engraçados. A reflexão sobre o que pode ser considerado (ou não!) loucura depressa fez surgir uma memória muito específica:

O Manu, esquizofrénico, a abanar a cabeça no meio de todo aquele circo de pijos hipócritas e a dizer (em espanhol)

"Isto é de loucos!"

 

E era mesmo. Mas a hipocrisia não se medica. 

 

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 (Imagem daqui. Não é um original da Mafaldinha mas é algo que ela diria. E eu também.)

or another

Estou há cinco meses em casa. Vá, de vez em quando saio, no outro dia até fui despejar o lixo e acabei a voar contra o caixote portanto nem tudo é aborrecido.

 

Quando me despedi, achava genuinamente que viajar seria a solução dos meus problemas. Afinal sempre vim melhor de todas as viagens que fiz. Quem não vem? Entretanto percebi que estava errada. Os problemas, se não os resolver, hão-de estar comigo aonde quer que eu vá ou fique: Setúbal, Irlanda ou Marte.
Parei o carro e avaliei de novo a estrada. "Ok, se calhar o caminho agora é outro". Tive um grande acidente pelo caminho e outros menos graves mas já estou a recuperar. Voltei a pegar no volante e, numa corrida contra o preço do gasóleo, vou planeando novos rumos - e rumos certos - e espreitando novas perspectivas pela janela.

 

Sei bem o que não quero. Sei que não quero voltar para um trabalho de merda que me ocupava os dias e não me estimulava a mente. Sei que não quero viver uma vida a meias e sendo menos de tudo o que sou capaz de ser. Sei que não quero - nem vou - contentar-me com as poucas opções precárias que me parecem restar porque não tenho diplomas. Talvez precise de diplomas para me tornar sô doutora (se bem que tenho 14 temporadas de Anatomia de Grey em cima, chupa essa, Faculdade de Medicina! Mas não se preocupem) mas não preciso de diplomas para contar histórias - só de coração e algum jeito para a coisa.

 

Nada me garante sucesso mas não tentar garante, sem dúvida, fracasso. E falhar de vez em quando não é vergonhoso e há-de acontecer, naturalmente. Hei-de ganhar mais cicatrizes mas não me envergonho daquelas que já tenho. Hei-de ter mais acidentes mas à beira da estrada é que não fico. É que se não é para crescer, mudar, seguir caminho e desbravar novas direcções, então mais valia ter ficado naquela linha de comboio há uns anos atrás. Mas não fiquei. Agora é altura de lutar pelos meus sonhos porque lutar por eles é lutar por mim. É altura de apanhar o comboio em direcção à vida em vez de me deitar, desistente, e vê-lo passar por cima de mim.

 

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 ( IRLANDA EM OUTUBRO DE 2017)