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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma viajante arco-íris que arde pelo mundo.

A cantina do engate

No outro dia falava com uma amiga sobre opções gratuitas para pessoas com algum tipo de carência alimentar. Ela há uns tempos tinha recomendado uma cantina social numa freguesia aqui de Almada e, na sequência de lhe ter questionado algumas informações extras nesse dia, aproveitei e perguntei também, na brincadeira mas na realidade de um tom carente (maldita Vénus....), se ela não conhecia uma cantina assim onde o prato principal fossem mulheres. Com um emoji a rir, convém destacar isto nestes textos contemporâneos, e com um chapadão mental "Epá, Samantha, ganha juízo, respeita a senhoras...".

 

Ela respondeu-me que conhecia uma cantina incrível de mulheres: o tinder. Disse-me, supostamente chocada, que a fome de uma pessoa era saciada, fosse o pedido algo requintado ou algo mais banal, e que se tinha apercebido disso através de umas amigas que por lá andavam porque uma "só queria sexo" (óptimo, sem máscaras) e outra "só queria conversar" (hmmm, não). Ri-me, e ainda lhe disse que estava chocada por ela estar chocada, porque essa cantina a mim não me choca - só me irrita. E expliquei:

 

Não tenho paciência para merdas e jogos sociais. 

Nesta analogia alimentar, acho muito bem que as pessoas queiram só hambúrgueres. A sério. Que se queiram lambuzar com um hambúrguer mesmo bom, com molhos e tudo, espectacular. Também tenho as minhas necessidades e às vezes - muitas vezes - também me apetece o mesmo. Mas eu quando vou ao McDonald's e quero um hambúrguer, não ando a engonhar e a dar conversa à pessoa que me está a atender e muito menos dou a entender que vou comer uma McSalada: peço logo o hambúrguer, seja ele qual for. É que andar às voltas, dar a entender que quero uma salada, não avisar que quero uma salada e, pior ainda, dizer mesmo que quero uma salada quando já sei que não quero (não falo aqui de mudar de ideias), vai resultar num gasto de tempo e recursos do outro lado do balcão e de um prejuízo para quem me fez a salada. Epá. Isso é irresponsável... e é isso que sinto relativamente ao tinder e a todas as situações sociais desse tipo dentro ou fora do ecrã, independentemente do género e orientação sexual das pessoas. 

 

Já usei o tinder uma par de vezes. Fiz uma amiga e acho que só porque a "conhecia" de outros lados. Nada mais do que isso. Gostava muito de poder utilizá-lo para aquilo que foi feito em parte - encontrar sexo e companhia - mas infelizmente comigo não dá porque não tenho nem paciência para lidar com pessoas nem paciência para guiões sociais. E por muito que me custe, não consigo achar piada a quase alguém. Bom, é a vida, assunto para outra altura. Só queria dar-vos um contexto de experiência, para evitar julgamentos de que sou pudica. Ah! Antes fosse, seria muito mais fácil, mas com tanto escorpião no meu mapa astral não dava mesmo que quisesse. 

O que quero dizer é:

 

Querer e precisar de sexo é válido e nada do qual se deva sentir vergonha. É que, fora as inseminações artificiais e coisas da ciência contemporânea, ninguém existe por causa das cegonhas, por exemplo. Mas o que é vergonhoso é brincar com o tempo e, provavelmente, emoções de alguém para o conseguir.

Justificar esse jogo social como um jogo de sedução porque assim é mais excitante é errado. Existe uma diferença entre transparência e sedução e uma coisa não invalida a outra: posso muito bem ser clara e dizer "é isto que quero" e a partir daí seduzir e brincar e proporcionar um ambiente e uma dinâmica mais íntima. Mas dizer que "só quero conversar", quando não é isso que quero e claramente quero algo mais, é irresponsável. E hipócrita, até. E começo a ficar muito cansada da irresponsabilidade emocional e social que é socialmente imposta como algo válido só porque, meu zeus, "gostar e precisar de sexo é um pecado"!

 

Epá, não é. Vamos lá ter mais cabecinha e usar menos o coração das pessoas só para podermos usar mais o nosso corpo. 

(E cá entre nós, a possibilidade de uma moça me dizer "é isto que quero contigo" sem merdas, opá, justifica logo o nome deste blog. Madre mia!)

Sem merdas

«Sabes, prefiro passar a imagem de que estou a fazer figura de idiota do que por dentro sentir e de facto ser uma idiota que não valoriza as pessoas que passam e passaram na minha vida. Se essas mesmas pessoas não têm a coragem e a decência de fazer o mesmo comigo, então por muito que me custe terei de aceitar que não é minha responsabilidade e que não há mais nada que eu possa fazer. Mas realmente não tenho feitio para estas merdas, e agora toma um conselho aqui da tua amiga (embora reconheça que nem sempre é fácil actuar sobre ele): se tens mesmo alguma coisa a dizer a alguém, especialmente coisas positivas como abrir a porta a uma resolução ou dizer que a pessoa é importante para ti, tu diz sem esperar ocasiões especiais. Dizer estas coisas não é mendigar, ao contrário da crença popular do amor próprio.»

 

Enviei estas palavras à minha amiga perante um desabafo acerca de uma situação com a qual estou a lidar neste momento. 

 

A verdade é que já não tenho medo de abrir portas emocionais e inter-relacionais. A parte boa de fugir ao padrão dos guiões sociais é que não me meto, pelo menos de forma consciente, nos jogos comportamentais após algumas situações correrem menos bem. Se é por falta de respeito, então sei também fechar as portas. Mas se simplesmente não era para acontecer porque, enfim, a vida por vezes mete-se pelo meio da vida, não vejo motivo para não reconhecer e sorrir se alguém por quem tive, e tenho (embora já não de uma forma romântica), imenso carinho está a passar por mim na rua.

 

Um ano e meio depois, na última quarta-feira, fui ver um filme japonês quase à borla. E ia pensando, tranquila, que esta cidade oferece-me coisas acessíveis e que, acima de tudo, são do meu interesse. E então ela passou por mim. O meu coração encheu-se de carinho, uma estima tão grande que se reflectiu num sorriso enorme preparado para soltar um "olá, é tão bom ver-te nesta cidade!" e que foi presenteado com um desvio de olhar e uma cabeça baixa que se recusava a reconhecer-me. Foi triste. Pareceu-me ter visto vergonha na sua cara. Fiquei entre o surpreendida, o chateada e, mais tarde, triste - mas empática. Não quero que se sinta desconfortável numa cidade que sempre foi a dela, e eu daqui não pretendo sair, pelo que um par de dias depois enviei-lhe uma mensagem que abria portas, caso o tivesse feito por não me conseguir encarar, ou que respeitava a saída por essa mesma porta caso o tivesse feito por simplesmente não querer falar comigo. Tudo bem (dentro daquilo que "bem" pode ser... é triste, mas é a vida). Só não admito que não me encarem como se fosse menos que nada, um monstro, um ser que tivesse feito muito mal a alguém (neste caso nem houve erros, foram simplesmente caminhos diferentes que foram seguidos por ambas as partes): prefiro que me ignorem como se fosse só mais uma pessoa a passar na rua. É mais digno.

 

Partilhei isto com a minha amiga que, sem julgamentos, me disse que se senti a necessidade de mandar a mensagem para ficar descansada (e, confesso, para deixar a outra parte descansada), então que só esperava que a outra parte valorizasse o facto de ter aberto assim o coração, como abro sempre, e que tivesse a decência de me responder. E cheguei à conclusão inicial deste texto.

 

Ainda não teve essa decência - ou coragem. Eu tive. E continuarei a ter, seja por quem for. Continuarei a abrir portas e o meu coração, mas não ficarei a segurá-las nem a segurá-lo à espera como se fosse a recepcionista das emoções de alguém. Não espero reciprocidade de sentimentos, mas espero reciprocidade de consideração. Aqui entra quem eu deixar apenas mas também só entra se quiser. A porta está aberta. Na incapacidade de perguntarem se podem voltar a entrar, continuarei a dizer:

"És bem-vinda!". Sem merdas. 

I'd rather fight than just fake it (cause I like it rough)

Não é que sejas inesquecível mas como é que se esquece que o meu maior amor foi uma fraude?

(E como é que se perdoa alguém que conseguiu transformar o que de melhor havia em mim em vergonha e náuseas?)

 

Continuo a ser emocionalmente diplomática mas há acordos de paz que só se alcançam através de palavras duras portanto vai-te foder. É frustrante que me tenhas tirado 10 anos da minha vida portanto imagino que seja pior teres de conviver contigo há (quase) 29 anos. E não te desejo mal, não: desejo-te autenticidade porque se não é para seres o que dizes ser ou queres ser, então não vales nada. E a forma como eu amo as pessoas que passaram, passam ou passarão na minha vida vale tudo. Amei-te (mas vai-te foder!). 

O calendário das emoções

Há um par de semanas estava a conversar com uma pessoa sobre as mais variadas coisas até que, a determinada altura, mencionei uma pessoa por quem estive enamorada ao longo de 10 anos. Mais tempo, menos tempo, acrescentei. E desde então que tenho questionado a formação da linha temporal das emoções e relações.

 

Ainda no outro dia estava a ver um episódio de Modern Family em que, numa referência a um filme, uma personagem parte o relógio e diz "Quero recordar o exacto momento em que voltei a apaixonar-me por ti.". E fiquei a pensar que realmente, no meu caso, consigo apontar um ano - 2007 - mas não consigo apontar uma data exacta para o momento em que me apaixonei. Parece que sempre foi algo que esteve comigo mas efectivamente não porque antes de 2007 isso não aconteceu, logicamente. E o mesmo acontece com o final: não consigo apontar o momento em que deixei de estar enamorada. Então como posso dizer que foram 10 anos, mais tempo, menos tempo? Porque foram. E porque foi um processo emocional e mental que não envolveu apenas uma emoção romântica mas toda uma conexão além disso e a sua respectiva complexidade (e consequências). E tanto envolveu uma parte abstracta como uma parte mais concreta. Entre sentimentos, palavras, decisões e actos, isto durou 10 anos. Mais tempo, menos tempo. 

 

Há marcos na vida das pessoas a partir dos quais se pode iniciar uma trajectória temporal mais específica, traduzidos em aniversários a partir de ali. Um namoro ou um casamento, por exemplo. Um nascimento. Até algumas amizades. Mas não foi nesse dia que as emoções começaram a existir. Uma celebração de 21 anos de qualquer coisa não é necessariamente um indicador da existência de 21 anos de emoções associadas a isso mesmo e às pessoas envolvidas. Então como é que se comemora o "aniversário" de algo que sentimos? A única conclusão à qual consigo chegar é: sem prender os sentimentos nos ponteiros de um relógio ou limitá-los a um quadrado no calendário. Com o coração.