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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos regados a cerveja e coração

(Re)solução?

Nunca fiz resoluções de ano novo. No outro dia ainda tentei criar uma lista muito básica de coisas acessíveis que me dessem algum tipo de motivação para esperar por um futuro, seja ele em 2019 ou não, mas não resultou. A lógica fazia sentido, mas a vontade não estava lá. Estou demasiado exausta para conseguir ansiar por coisas boas.

Hoje, por aqui, alguém me dizia que o fácil é projectar. E pus-me a pensar... vejo que na generalidade é. E não condeno as pessoas, pelo contrário. É engraçada a intenção de mudar e de fazer melhor. É boa, até. Por vezes dá azo a outras mudanças mais importantes. Mas a verdade é que para mim e para pessoas como eu não é fácil projectar. Tudo me aparece absurdo e na verdade é. Vender sonhos para suprir necessidades básicas.

 

Também não costumo celebrar este dia. O ano passado ainda me forcei a ir à baixa de Setúbal ver os foguetes e foi, de facto, um espectáculo bonito. E emocionalmente devastador. A maior proeza foi chorar ininterruptamente de um ano para o outro, basicamente. Houve um ano, para aí há três ou quatro, em que me juntei a duas pessoas que conhecia e jantámos lá por casa de uma delas. Senti-me muito vazia. E nos restantes anos, em modo de sobrevivência por ser o segundo pior dia do ano para mim, ficava em casa: ou dormia ou esquecia o mundo vendo séries e filmes. 

 

Hoje vou até Cacilhas ou ao Ginjal ver os foguetes. Tinha uns trocos então comprei uma litrosa. De regresso a casa, se não estiver demasiado desmoralizada e ainda estiver por cá, passo pelo barzinho. Porque cheguei à conclusão que afinal tenho uma resolução: é aguentar este dia. Sobreviver. E conseguir ter um futuro nesta cidade. No mundo.

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(Há umas tardes atrás no Ginjal...)

O barzinho

Tem uma sala quadrada pequena forjada a preto e vermelho e com fotos de concertos penduradas. Assim que entro, sempre por volta das 22h, peço uma imperial e sento-me numa das duas mesas encostadas à parede. É redonda e pequena, como são as outras sete, e fica perto da cabine onde se põe a música. Durante essa primeira hora, o habitual ronda o rock melancólico e o grunge dos anos 90, sempre acompanhado de um incenso, mas na sexta-feira passada estava a passar punk português. Tara Perdida, Samantha Encontrada. Chegam as 23h e alguns minutos e as pessoas começam a chegar. O ritmo aumenta, normalmente por algum DJ convidado, e o metal mais pesado e conhecido normalmente ganha lugar. Também gosto. Mas no outro dia o moço convidado tinha uma onda mais (pop e anarco) punk e isso já mexeu mais comigo. E ontem as intérpretes femininas ganharam destaque. Pedi mais uma cerveja e fiquei mais um pouco. Gosto de alguns clássicos mas para mim o melhor do rock, do mais leve ao mais pesado, vem das guitarras e das vozes das mulheres da rockalhada. Cantei tudo. Perante os toques musicais pesados, senti-me leve. O fumo das outras pessoas entranhou-se nos pulmões e senti-me miseravelmente bem. 

 

Encontra-se no centro histórico de Almada, a dois passos do sítio onde estou a morar mas é ali que vou à noite para viver. Ouvir duas das minhas bandas preferidas, Hole e L7, a tocarem num bar em Portugal, enquanto bebo cerveja no meu cantinho e me sinto mais próxima de mim do que durante o dia, é encontrar casa no meio do caos. É o meu porto-de-abrigo, onde descansei a cabeça e onde tomei decisões. E ontem tomei mais uma.

 

Tem outro nome mas é assim que penso nele:

O barzinho do meu coração, que me salvou durante estes meses de confusão.

A minha história de amor

No outro dia conheci uma moça. Entre cervejas, camarões e Cacilhas, o meu coração voltou a palpitar e a minha alma voltou a ganhar algum sentido. Ela tão sol, eu tão lua e a conversa tão mundo. 

 

Vivemos para viajar e viajamos para viver. Está na nossa essência. Não nas semanas de férias de uma vida que não nos preenche mas enquanto modo de vida. Se por motivos circunstanciais de um sistema capitalista e precário não nos é sempre possível, também não será impossível. Sonho eu. Entre conversas e reflexões, as nossas experiências partilhadas naquela tarde recordaram-me que há um caminho que me faz feliz e que me faz bem e que esse caminho são os caminhos do mundo.

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A minha irmã ofereceu-me este natal um mapa-múndi grandalhão com uns pins em formato bandeira para apontar os sítios onde já estive. Eu olho para ali e babo-me a pensar em todos os sítios onde ainda vou estar, se conseguir organizar a minha cabeça e a minha vida nos próximos tempos. Ainda me deu um kit de viagem com um cadeado em formato mala e um avião para colocar os meus dados de identificação e colocar na minha bagagem. Normalmente viajo apenas com uma mochila/mala de desporto: nem tenho muita coisa e aprendi que preciso sempre de menos em cada viagem. Mas vai dar jeito. E, na linha do encontro que tive com a moça viajante que, tal como eu, tem uma imensa dificuldade em navegar nas águas "normais" e paradas deste sistema casa-família-trabalho-rotinas-cidade, parece-me um bom motivador para orientar o meu caminho.

 

Na noite das cervejas, camarões e Cacilhas, depois de muita música em vários idiomas que ouvimos e nos demos mutuamente a conhecer, despedimo-nos com um beijo bom. A moça sorriu e disse-me "isto não fica por aqui". Respondi-lhe "vamos ver", porque é provável que fique embora gostasse de a ver de novo, sim. Já lhe disse isso, mas o universo saberá quando e se os nossos caminhos se cruzarão outra vez. Se for o caso, aproveitarei. Se não for, ficarei eternamente grata pela partilha de tempo e energia daquele dia. É que eu vim de lá apaixonada pela vida, enamorada pelo mundo e relembrada deste meu amor maior por geografia e culturas. E isso vale por tudo.

A melhor prenda de natal

Hoje sonhei que publicava um post aqui no blog uns dias antes do Natal. Era assim:

 

(Título) A melhor prenda de Natal

 

(Texto) Depois de um ano dos infernos a tentar me fazer à vida e a levar patadas atrás de patadas, de viver de forma precária e a racionar comida e de quase ter sido abalroada por um comboio (metafórica e literalmente), finalmente encontrei um emprego na área, na localização e nas condições que eu queria e que preciso para orientar a minha vida financeira e, acima de tudo, para orientar as nuvens negras desta cabecinha num outro sentido muito mais saudável.

 

Não era a oportunidade profissional dos meus sonhos onde conto histórias, reais ou fictícias, através da escrita, fotografia e cinematografia, até porque preciso de descansar mental e emocionalmente antes de seguir por aí. Mas era algo que eu gostava de fazer neste momento nesta cidade onde gosto de estar e que foi algo no qual investi monetariamente para sair do ciclo vicioso da precariedade. Como seria bom meter a farda e calçar as botas, fazer o que tenho a fazer perto de casa pelo tempo necessário (que não é full-time e muito menos turnos de 12 horas) para estar desafogada ao final do mês, tanto monetária como mentalmente, e regressar a casa e/ou à cidade para me dedicar a mim, a uma taça de chá  ou caneca de cerveja e um livro ou um filme ou evento cultural e, consequentemente, descansar a cabecinha, o coração e a alma.

 

Ter a certeza de uma segurança (casa, tempo, comida e saúde mental) controlada seria a melhor prenda de natal.

Um sonho, ainda que não seja o da vida, concretizado. 

É tudo o que eu quero. 

Afinal ninguém paga um tecto e comida com o ar ou boas energias... (além do mais, tornei-me mestre das sopas caseiras e convinha ter dinheiro para comprar outros ingredientes...)

Caminhadas longas e prósperas (um passeio na Irlanda)

Fora a Espanha de mi corazón, quem me conhece sabe que (quando estou ligeiramente menos pobre) ando sempre metida na Irlanda: com a alma desde que me conheço e anualmente, de forma presencial, desde 2015. E este ano não foi excepção - só que em vez de fazer o hat trick de aniversário na Irlanda em Outubro, meti-me lá na pior altura do ano para mim: o verão. E resultou, embora tivessem sido dias difíceis. 

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(De maratonas de Star Trek a Irish Trek: Hike Long and Prosper, e prosperei. 🖖)

 

O plano habitual de viajar de mala às costas a trocar comida e estadia por algum trabalho em quintas, associações, casas de família e por aí fora, foi completamente espancado por um timing horrível entre (a falta de) respostas e pelas nuvens negras na minha cabeça que este ano estão mais intensas que nunca. Está a ser um ano muito difícil, mas perante essa tempestade e falta de abrigo mentais, durante uns dias consegui descansar um pouco a cabeça no meio de um paraíso: O Parque Nacional das Montanhas Wicklow, mais concretamente no vale dos dois lagos (Glendalough). 

Depois de uma crise de pânico/desespero/tristeza/solidão/a cabeça a mil quando estava ainda em Dublin, decidi que quaisquer trocos que eu tivesse comigo seriam gastos para descansar. E assim reservei um quarto no hostel das montanhas.

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 No dia seguinte, meti-me num autocarro que apanhei perto do St. Stephen's Green e lá fui a ver se me conseguia salvar de alguma falta de sentido na vida. Sentei-me ao lado de uma moça fofa que ia a ler um livro e logo aí senti um click de esperança: afinal ainda conseguia sentir interesse por coisas e pessoas no mundo. Ela viria a ficar no mesmo sítio que eu pela mesma quantidade de dias. Nunca nos falámos, fora uns acenos de reconhecimento, mas no meio de jovens que iam e vinham sempre em duplas ou grupos a socializar, ela era a única que, tal como eu, viajava sozinha, fazia tudo sozinha e estava sempre agarrada aos livros. Adorável. Ainda pensei que fôssemos dar uma de "P.S, I love you" (que foi filmado neste lugar, btw!) e ser namoradas/esposas no futuro, mas não. 

 

E mal cheguei, percebi logo que aquilo era o paraíso da confirmação para alguém que anda há anos a levar com "mas ele não faz mal" cada vez que me afasto de um cão (meus ricos gatos)! Há um sítio na terra,  e esse sítio é na Irlanda, que confirma a minha teoria de que os cães são o demónio disfarçado de fofura e lealdade (batam-me mas está aqui a prova de que é verdade)!

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(olhem o sofrimento destas criaturas... pobre cabrinha, especialmente.

Leave cabrinhas alone)

 

E, esperta como sou, eu que ando sempre de botas em qualquer altura do ano e em qualquer lugar, decidi que ia o mais leve possível para a viagem. Levei as minhas pseudo-all-star super baratas. E fiz tantas, tantas trilhas com elas que os meus pés ficaram mais esburacados que os pés de todos os peregrinos de Fátima juntos. Mas já me dizia o lugar à sua maneira, patrocinado por uma mensagem nas traseiras de uns sapatos de 5 euros: olha para trás para aprenderes mas segue em frente que vale a pena. E é verdade.

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(curiosidade: ando sempre com meias diferentes em cada pé. Como cantam os Calle 13: Si quieres cambio verdadero, pues... camina distinto )

 

Estive lá cerca de três dias. Ou quatro. Ou cinco? A memória por vezes trai-me. Apanhei sol e apanhei chuva. E não é suposto isto ser um guia de viagem. Tem um hostel e tem um hotel (cujo restaurante, à noite, é a única instalação aberta onde há comida e onde eu ia comer uma sopinha do menu das crianças porque era o mais barato que eu conseguia pagar) mas, mais importante, tem tesouros escondidos. Há várias trilhas mas há uma especial que leva ao vale, um vale que nos transporta para um ambiente de outro mundo (a sério, parecia mesmo que estava num daqueles planetas recônditos cheios de pedras que se vê no entretenimento sci-fi). Há veados à solta. Há topos para alcançar. E ambos os lagos são de uma beleza incrível. Tipo Suíça versão mais barata! E procurei por cabrinhas porque eu adoro cabrinhas mas só encontrei ovelhas. Entre outras coisas. Talvez algum dia as partilhe.

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(chegada ao primeiro lago)

 

O mais interessante é que, sendo um local monástico, tem um cemitério que podemos visitar com as suas cruzes e inscrições celtas. O que me fez reflectir que, tal como eu, há séculos que as pessoas vêm aqui para descansar. (esta é daquelas para clicar na seta ao lado)

 

E pensei: realmente é um bom sítio para descansar. 

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(euzinha a tirar fotos a mim mesma como se alguém me estivesse a tirar fotos de mim a olhar para o horizonte - uma pessoa passa a vida a viajar sozinha então aprende a desenrascar-se)

Dão chuva para amanhã mas a tempestade foi hoje

Por vezes (tantas vezes) o melhor a fazer por mim é mesmo:

  • Fazer uma sesta
  • Acordar e meter na cabeça que "amanhã é um novo dia e logo honrarei os meus compromissos  - ninguém morre se eu não enviar uma resposta hoje"
  • Comer uma sopinha
  • Preparar um chocolate quente, voltar para a cama e, alternadamente, agarrar-me ao livro que ando a ler e ver os episódios desta semana das séries que acompanho (ou um filme, consoante a vontade)
  • E dar graças por só ter 53 cêntimos na conta porque assim evito comprar merda e sentir-me ainda pior

 

Amanhã tento de novo. Recomeço mais uma vez. Mais descansada. E com a cabecinha a funcionar melhor. 

(Espero eu...)

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