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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma lésbica passada dos cornos e meio anti-social

A lésbica solitária

Mudei de número de telemóvel recentemente. E de e-mail. Continuo sem fazer parte de redes sociais. A única maneira de alguém encontrar rastos meus online é pedir ajuda ao SIS (tipo a CIA portuguesa...) e ainda assim duvido que consigam. Até há uns tempos, pesquisando pelo meu nome completo, era possível encontrar uma ode à Nelly Furtado que eu escrevi quando tinha 10 anos. Agora nem isso. Que pena. E que bom também. Mas que pena...

 

Quando mudei de número de telemóvel, dei-o apenas a um par de pessoas. Não é que muitas o tivessem. Uma vez, por exemplo, uma comercial de ginásio veio pedir-me contactos de pessoas para lhes fazer uma oferta, e quando lhe disse que não tinha porque não sou muito dada a pessoas, olhou para mim desconfiada, fez um comentário como se eu estivesse a mentir, e acabei a mostrar-lhe a minha lista curta de contactos que tinha mais números de apoio da MEO do que número de telemóvel de pessoas reais. A moça olhou para mim como se eu fosse um alien.  

 

No outro dia recebi uma mensagem da vodafone que me informava que eu tinha recebido um MMS mas, como não tinha os MMS activos, teria de ir ao site deles ver. Não estava lá nada. Nem informação de quem tinha tentado enviar. Então mandei uma mensagem a uma pessoa a perguntar se tinha sido ela. Não era. E ainda questionou-me "mas quem é que usa MMS hoje em dia?". Na brincadeira disse que até se sentia ofendida. Ri-me. Realmente, quem é que utiliza? Mas é que, com a mudança, decidi que desta vez não iria instalar o whatsapp. E tenho estado nas maravilhas.

 

Há um par de dias, no site onde troco postais, recebi uma mensagem de um moço alemão a convidar-me para fazer parte de um grupo orientado para a comunidade LGBTQI+ que gosta de enviar e receber postais. O grupo é no facebook. Obrigada, senhor, mas não vai dar. Prefiro continuar a ser uma lésbica quase info-excluída. Maior é a probabilidade de receber um postal da Coreia do Norte ou da Ilha da Sentinela do Norte de que voltar a esse tipo de plataformas.

 

Volta e meia lá vem alguém do alto da sua visão limitada com palas, muito experiente na arte de afirmar que o ser humano é um ser social, dizer-me que assim só perco. E com razão: perco coisas e pessoas que não me interessam e que me fazem perder tempo e energia. E, com estes filtros, fica quem e o que importa e fico eu sossegadinha da vida.

É fácil? Epá, nem sempre, mas há um par de semanas medimos a tensão arterial lá na formação e eu era a única que estava na linha verde. ("Epá, ó Samantha, não sejas burra... a tensão arterial não é isso... é da alimentação, pá...", virá alguém explicar a piada... respondo de novo: estar constantemente a consumir e a ser consumido/a social e virtualmente tem realmente feito maravilhas à tua cabecinha, não é?)

 

P. S, a Nelly Furtado e a Britney Spears fazem anos hoje. É só isto que interessa.

Comunicação ou comunica-não?

Há um par de dias ligaram-me em resposta a uma candidatura que tinha enviado. Queriam marcar uma entrevista pois estavam a contratar para vários departamentos e eu, sabendo que me tinha candidatado à segunda pior coisa que poderia estar a fazer mas que, enfim, era o part-time ideal (das 10h às 14h) para ganhar os trocos necessários para comprar comida, não esperava nada mais ou supostamente melhor do que isso então questionei se podíamos fazer a entrevista para o posto específico ao qual me tinha candidatado. "Sim, sim, mas também estamos a candidatar para vários departamentos e então vemos se pode ir para algum deles...". Não me cheirou bem. Tinha me candidatado a assistência ao cliente num call-center e tenho dois anos e tal de experiência na área pelo que sei como as coisas funcionam e dois obstáculos se punham:

  1. Qualquer promoção a um cargo onde recebesse mais normalmente é interna, a não ser que venha já como supervisora de outro departamento (não é o caso) e normalmente não é part-time;
  2. Não tenho interesse nenhum em fazer carreira em call-center nem em ter cargos de responsabilidade nessa área. Já me cansa demasiado estar nesse ambiente a lidar com clientes, não sou uma pessoa dada a colegas de trabalho e certamente não tenho paciência para ser responsável por "motivar" pessoas a cumprirem objectivos numéricos e capitalistas que a mim não me importam e que considero um desperdício de vida e de humanidade;

 

Voltei a questionar se a entrevista em algum momento iria englobar o cargo ao qual me tinha candidatado e fui o mais transparente e assertiva possível: "É assim, ir à entrevista implica gastar dinheiro no metro. 1,70. Pode não parecer muito mas neste momento é muito do que eu tenho. Portanto preciso que seja honesto comigo, que não haja ambiguidade, e que me diga se vamos mesmo fazer a entrevista para este cargo ou se é uma outra coisa qualquer onde não irei ficar ou terei interesse algum em ficar, porque não me posso dar a luxos de perder tempo, energia e dinheiro nesta altura." 

 

Enfim, pedi honestidade e um pouco de responsabilidade social. Pedi o que me pediam nos requisitos: comunicação clara. Plamordasanta, ando a racionar comida, não pretendo jogar o papel de vítima mas não é exagero quando digo que todos os cêntimos contam nesta altura e sou o mais transparente possível acerca da minha situação. E o homem lá me respondeu que sim, iríamos fazer a entrevista para o cargo em questão. Então lá marcámos.

 

No dia seguinte, uns minutos antes da hora combinada, lá estava eu. Entrei, confiante, e a entrevista começou. Mas não começou bem. Não por mim, que o meu nível de comunicação estava seguro e claro e inteligente (até piadas políticas fiz), ao ponto do homem realmente ter dito genuinamente que eu nasci para ser comercial (mais um sino de perigo a tocar aqui...), ao que respondi que sim, tenho muito jeito com as pessoas mas a minha natureza é muito solitária e socialmente crítica e eu simplesmente não tenho paciência para elas nem para a forma supérflua como o sistema social está construído , daí me ter candidatado a um part-time. Riram-se e apreciou a honestidade. Mas não foi assim que começou, foi como uma colaboradora a perguntar-lhe se podia assistir à entrevista. E ele respondeu que sim. Não me caiu bem mas lá ficou.

Ele começou a questionar coisas e eu entretanto pedi-lhe, de forma cordial e descontraída, que passássemos para o que importava mesmo porque não me sentia à vontade para partilhar informação privada num espaço aberto e muito menos com pessoas desconhecidas e que não estavam responsáveis pelo recrutamento (não é exagero nem mentira, migs, eu sou do signo escorpião e ainda por cima tenho Mercúrio, o planeta da comunicação,  também em escorpião, portanto normalmente digo mesmo estas coisas sem receio). Isto tudo dito sem desrespeito, de forma alegre até, e de uma forma que, honestamente, estava a conquistá-los. Só que a mim estas coisas não me conquistam. E o meu instinto não falha.

 

Afinal a entrevista era para comerciais de porta-a-porta. Fiz logo cara feia. E o horário afinal era das 14h às 18h. 

Vender e fazer contratos mas sem eu própria ter um contrato. A pior coisa que (me recordo) poderia estar a fazer.

 

"Eu candidatei-me porque era um part-time das 10h às 14h. Apoio ao Cliente. Call Center."; disse-lhe.

"Ah, não, eu não gosto de call centers...", respondeu-me o mesmo homem que no dia anterior me tinha confirmado que era para isso mesmo.

 

Passei-me com toda a classe. Estava nesses dias. As palavras saiam-me de forma correcta e fluída e a minha presença estava bastante segura. Sabem? E então, de forma mais pesada, disse-lhe: "E eu não gosto de gente que, conscientemente, não tem um pingo de honestidade nem de responsabilidade humana e social"

 

A cara do homem que, como homem quem é, tentou ganhar controlo com agressividade, é impagável. Infelizmente. Queria que este tipo de situações fossem apagadas da história da humanidade e da essência que nos corre na alma. É nojento. Mais algumas coisas foram ditas, nomeadamente a menção ao que se tinha falado ao telemóvel, sempre em controlo da "conversa", despedi-me com um: "Aqui não perco mais tempo, pessoas como tu não valem um chavo".

 

E saí com toda a confiança e dignidade possível mas assim que cheguei a casa desabei, irritada, sem confiança num futuro positivo para mim. Fiquei desgastada. Agora, mais recuperada, juro que nem que tenha de ir pedir dinheiro para a rua e comer à cantina social ou fazer uma refeição por dia apenas nalguns dias nos próximos tempos, eu vou terminar a minha formação de vigilante e encontrar um trabalho em condições e que quero fazer neste momento e que me dê tempo para me dedicar, nos tempos livres, a mim e à minha criatividade e, consequentemente, felicidade. Epá, tem de ser. Nem sei bem como sobreviver nos próximos tempos mas não faz parte do meu feitio compactuar com estas merdas. De todos os defeitos que, como ser humano, posso ter, sei que um deles não é a falta de humanidade e responsabilidade social. E isto tem de valer alguma coisa mais do que o grande salário que o desgraçado da entrevista e as corporações recebem à pala de gente que precisa.

 

Tanto pedem boas capacidades de comunicação que se esquecem da mais importante: transparência. 

Talvez este tipo de pessoas e "empresas" vendessem mais se não vendessem a alma. 

Carta aberta às pessoas que vão ao cinema

Caras abomináveis pessoas,

 

Não vos escrevo na esperança (que é vã) de que, por lerem estas palavras, se aprendam a comportar de forma mais humana; escrevo-vos para que saibam que vos considero uma amostra do que é a humanidade actualmente: e abomino o que vejo.

 

Se a entrada está fechada, não a contornem e não tentem entrar por outros lados. Especialmente se o vosso filme só começa dentro de 42 minutos. Sei lá, só assim por acaso, já pensaram que há um motivo para ela estar fechada? É que também não me parece que seja a primeira vez que vão ao cinema e, como devem saber, alguém (eu) tem de rasgar o bilhete, permitir a entrada e indicar-vos a sala para onde se devem dirigir. É só um conselho. Prometo-vos que estarei à entrada a horas decentes para vos deixar entrar, a sério, sou super apaixonada por cinema e não gosto de perder um segundo (até os créditos!), portanto gosto de proporcionar a mesma experiência a quem lá vai. E é por isso que, se não estiver lá 42 minutos antes do vosso filme começar, devo estar a tratar de outras coisas igualmente importantes para que o possam ver em condições: a limpar a sala, a ver se está tudo a funcionar bem com a tela, com as luzes, com o som, a organizar os intervalos, uma data de coisas. Não nasci com o dom de ser omnipresente, mas prometo-vos que o horário possibilita-me fazer tudo o que deve ser feito... se vocês não andarem por lá a passear e a pedirem a minha atenção e servidão como se o mundo girasse à vossa volta e não existissem outras sessões a passarem antes da vossa.

 

Mas depois não chega, não é? Quando se aproxima a hora de entrada e estou a receber e a rasgar bilhetes, se vos peço para aguardarem lá à frente não é para aguardarem a dois metros de mim, ao lado da fila, no meio do corredor, impedindo a passagem de algumas pessoas, criando uma confusão descomunal de ruído e pessoas aglomeradas. É cansativo. E especialmente se venho lá do fundo e vos peço que aguardem onde estão, epá, não avancem até ao sítio onde estou. Se eu quisesse que viessem ter comigo não vos tinha pedido que aguardassem aí. Sei lá, só por acaso, não pensaram nisso também? E lá tenho eu de vos falar de uma forma mais impaciente, pedindo que dêem volta e que regressem ao ponto de entrada que já lá vou ter convosco, para ter de vos ouvir pessoalmente ofendidas a dizer "que isto não é serviço nenhum". Pois não, miga, porque o serviço de entrada fá-lo-ei com qualidade e simpatia no sítio correcto, não no meio do corredor a 30 metros da entrada com um grupo de 21 pessoas à minha volta, não em fila, como se fossem uns abutres e eu fosse um ser cadavérico. 

 

Mas a verdade é que me questiono para quê toda esta pressa egoísta e mal-educada se, no fundo, vocês não vão ao cinema experienciar um filme. Já nem falo de ficarem até ao final dos créditos (mas olhem, há cenas extras como muitas vezes vos aviso!), deixo isso para gente cinematograficamente apaixonada como eu, mas é que entre chegarem com atraso porque entretanto se lembraram que queriam comprar pipocas (sei lá, não vos ocorreu fazer isso durante aqueles 42 minutos?), saírem a meio do filme para falarem ao telemóvel sobre as compras que têm de fazer e até saírem a meio do filme para irem buscar mais pipocas (se isto não é absurdo, não sei o que é), acharem que os intervalos duram meia-hora como se isto fosse a TVI, fazerem barulho e mexerem nos telemóveis enquanto o filme passa, falarem alto gritarem constantemente na entrada e nos corredores como se estivessem num estádio, não respeitarem as pessoas que lá trabalham e ignorarem constantemente o que vos é pedido, entre outras coisas, gostaria de vos questionar o que vão lá fazer. Vão bater ponto na obrigação de terem alguma actividade de lazer? Vão descarregar a vossa imbecilidade num sítio que devia proporcionar experiências bonitas e reflexivas? Nem vocês sabem por que motivo é que vão, pois não? Parece automático e sempre à pressa. É triste e é frustrante, porque (notícia de última hora!) vocês não são as únicas pessoas no mundo e o vosso comportamento é repetido à exaustão por centenas de outras pessoas. E eu não sou nenhum robot.

 

Às pessoas que não vão nestes termos abomináveis e que não me tiram tanta energia por serem simpáticas/respeitadoras e não serem abutres de paciência:

Obrigada. A sério. Mas se puder pedir-vos alguma coisa só para me facilitar o trabalho e não gastar mais energia do que o necessário para poder aguentar as gentes a quem escrevi nos parágrafos anteriores, gostaria de vos pedir que, quando me derem os bilhetes, não me dêem os bilhetes dobrados e, se possível, também não me dêem a factura (essa é para vocês). E se possível, por favor tirem-nos da mala ou da carteira antes de se dirigirem a mim, porque essa procura por vezes demora, tira tempo e causa algum congestionamento nas entradas. E, por favor, mas por favor mesmo, por muito que sejam simpáticas/os e gostem de conversar comigo sobre referências cinematográficas e por muito que eu esteja disponível para o fazer, NÃO ME CONTEM O QUE ACONTECEU DURANTE O FILME E MUITO MENOS O FINAL. A SÉRIO. Não me abatam um amor que tem sido constantemente espancado pelas outras pessoas. 

 

A todas as pessoas, as imbecis egoístas e as mais humanas, não vos escrevo apenas enquanto funcionária mas sobretudo enquanto alguém que encontra no cinema algo que dá gosto à vida.

Enquanto espectadora, irrita-me profundamente que cheguem com atraso, abram portas, deixem entrar luz e ruído, façam ainda mais barulho enquanto se sentam e enquanto o filme passa, que se metam à minha frente e não me deixem ver as imagens em condições, que façam luz com os telemóveis, enfim, que dêem cabo daquele momento. Enquanto funcionária também me custa deixar-vos entrar quando sei que vão fazer isso tudo com as pessoas que já lá estão. Em vez de vos mandar para a sala X, a minha vontade é de vos mandar para o raio que vos parta.

É suposto o cinema ser magia ainda que não a sintamos com a mesma profundidade: seja um drama ou comédia, seja um clássico ou algo mais superficial, seja a primeira ou a última sessão. É suposto ser um escape dessa mesquinhez social quotidiana e não mais um espaço onde as pessoas são as versões mais comuns e negativas delas mesmas. Mas se é isso que preferem continuar a ser e a vossa prioridade é consumir pipocas e não a história que está a decorrer no ecrã, então gostaria muito que vos engasgassem com elas. 

 

Com pesar, irritação e uma sensação doente desgraçada neste meu dia de folga por estar a repor toda a vossa má energia, termino esta carta, sabendo de antemão que não é apenas no cinema que isto acontece mas é no cinema que mais me dói. 

 

Nunca vossa, zeus me livre, não sou um bicho social e muito menos um robot ovelha da vida real,

Samantha completamente a arder por todos os lados e com vontade de pegar fogo à humanidade

 

(Encontrei trabalho no cinema da terrinha - imaginem se fosse na capital ou noutra cidade maior... - e tive um fim-de-semana de merda. Há mais de um ano que isto não me acontecia: ficar de cama porque a minha energia mental e social se desgastou numa situação laboral. Tenho teorias. Talvez um dia fale sobre elas. Por hoje fica o desabafo.)

Dia Internacional das Super-Mulheres

Escrevi mais um texto para o Androids e Demogorgons, desta vez um paralelo entre a série Jessica Jones (sem spoilers específicos, prometo!) e algumas situações que levam à existência do Dia Internacional da Mulher. Se tiverem interesse:

 

O Dia da Mulher e o Dia de Jessica Jones

 

 

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