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Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma lésbica passada dos cornos e meio anti-social

Apontamentos geográficos

  • A minha vontade aka necessidade de viajar está a regressar aos poucos de forma genuína, sem a obrigação de o fazer porque sempre o quis fazer, apenas o coração a saltar-me dos olhos cada vez que vejo ou escuto algo de outra cultura. 

 

  • Não quero viajar nas férias. Vá, também quero, obviamente. Mas o que eu quero é viajar com frequência enquanto ferramenta de trabalho também. E não, nada dessas tretas de me juntar a uma empresa com escritórios noutros países e subir a cargos que não me interessam para depois passar os dias em escritórios noutras coordenadas. Uhm uhm, a mim não me apanham dentro de escritórios outra vez a não ser que sejam os escritórios da National Geographic e eu esteja a tratar de algum projecto (sonho alto?). 

 

  • Costumo andar pelo google maps. E não é para ver onde fica a mercearia da Dona Inês. É super divertido. Atiro a bonequinha para o meio do mapa aleatoriamente e começo a explorar. Uma vez encontrei uma lareira no meio do nada. Também já encontrei o Nemo. E um peluche abandonado também. O mundo é um lugar estranho - de uma boa maneira! Isto dava uma boa rubrica. 

 

  • Estou a 239 quilómetros de um abraço que não sai do meu pensamento. Mas não é o momento, cada viagem e cada abraço a seu tempo. E eu entendo isso.

 

Hoje é o oitavo aniversário da minha primeira viagem de avião

Oito anos depois já apanhei vários aviões. A maior parte sozinha, alguns acompanhada. Uns para férias, outros de mudança para outros países. Já passei noites no aeroporto à espera do voo, já tive um voo cancelado e nenhuma informação. Já tive conversas interessantes com pessoas que não conhecia, já sofri com o silêncio agoniante de quem estava comigo. Já tive viagens boas, outras cansativas. Já viajei mais vezes de avião do que pensei que alguma vez faria dadas as circunstâncias em que sempre vivi e ainda assim não acho suficiente. 

 

Há oito anos, depois de uma escala em Zurique e outra em Istambul, estava nos ares em direcção ao sul da Turquia. Cansada mas super animada e fascinada. Tudo me encantava: os aeroportos, os check-in, a entrada nos aviões, subir às nuvens, descer das nuvens, olhar pela janela e ver as mais variadas paisagens, a comida servida, a bebida servida, o barulho dos aviões, o silêncio quando toda a gente estava cansada, as pessoas de várias nacionalidades e feitios que se dirigiam para o mesmo sítio, as hospedeiras, as frases imperceptíveis dos pilotos, os protocolos, até a casa-de-banho. Estava maravilhada e acima de tudo orgulhosa de mim por ter aberto as minhas próprias asas e não ter desistido quando me disseram que só podia concorrer à viagem com um trabalho de equipa. Quem não me quis na equipa ficou em terra e eu, sozinha, voei-me para o mundo pela primeira vez. 

 

Viajar de avião lixa-me sempre os ouvidos. Não há truque aprendido que alivie a pressão mas não faz mal porque quando estou lá em cima os pesos da alma entram em estado de remissão.

Também não tenho medo de viajar de avião mesmo quando há alguma coisa que não está a correr como devia. Mas tenho medo de não voltar a viajar assim. E então penso:

há oito anos viajei de avião pela primeira vez, de certeza que há três meses não foi a última vez. Espero bem que não.

 

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 (Aeroporto de Málaga, Junho de 2016)

or another

Estou há cinco meses em casa. Vá, de vez em quando saio, no outro dia até fui despejar o lixo e acabei a voar contra o caixote portanto nem tudo é aborrecido.

 

Quando me despedi, achava genuinamente que viajar seria a solução dos meus problemas. Afinal sempre vim melhor de todas as viagens que fiz. Quem não vem? Entretanto percebi que estava errada. Os problemas, se não os resolver, hão-de estar comigo aonde quer que eu vá ou fique: Setúbal, Irlanda ou Marte.
Parei o carro e avaliei de novo a estrada. "Ok, se calhar o caminho agora é outro". Tive um grande acidente pelo caminho e outros menos graves mas já estou a recuperar. Voltei a pegar no volante e, numa corrida contra o preço do gasóleo, vou planeando novos rumos - e rumos certos - e espreitando novas perspectivas pela janela.

 

Sei bem o que não quero. Sei que não quero voltar para um trabalho de merda que me ocupava os dias e não me estimulava a mente. Sei que não quero viver uma vida a meias e sendo menos de tudo o que sou capaz de ser. Sei que não quero - nem vou - contentar-me com as poucas opções precárias que me parecem restar porque não tenho diplomas. Talvez precise de diplomas para me tornar sô doutora (se bem que tenho 14 temporadas de Anatomia de Grey em cima, chupa essa, Faculdade de Medicina! Mas não se preocupem) mas não preciso de diplomas para contar histórias - só de coração e algum jeito para a coisa.

 

Nada me garante sucesso mas não tentar garante, sem dúvida, fracasso. E falhar de vez em quando não é vergonhoso e há-de acontecer, naturalmente. Hei-de ganhar mais cicatrizes mas não me envergonho daquelas que já tenho. Hei-de ter mais acidentes mas à beira da estrada é que não fico. É que se não é para crescer, mudar, seguir caminho e desbravar novas direcções, então mais valia ter ficado naquela linha de comboio há uns anos atrás. Mas não fiquei. Agora é altura de lutar pelos meus sonhos porque lutar por eles é lutar por mim. É altura de apanhar o comboio em direcção à vida em vez de me deitar, desistente, e vê-lo passar por cima de mim.

 

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 ( IRLANDA EM OUTUBRO DE 2017)

 

Coisas boas

Quando criei o blog a ideia era partilhar a história da ilha e do burro e de outras tantas desse género que já vivi. No entanto, entre as viagens que contei e as outras que queria contar, o meu carro foi sequestrado por um passageiro que pegou no volante e me levou por sítios onde eu não queria estar. Não vou pedir desculpa pelos estados depressivos nem pelo muro das lamentações que se ergueu neste espaço, mas vou voltar a pegar no volante e guiar-vos por alguns sítios meus que são bons para se conhecer. Também existem!

 

Gosto muito de geografia e de assuntos que se encontram com ela. Tanto que quando soube que a bióloga marinha Sylvia Earle vinha cá à National Geographic Summit 2018 dei pulos de alegria como, sei lá, aquela vez que toda a gente em Portugal (menos eu) celebrou quando Portugal ganhou não sei o quê. Não gosto de futebol (um ultraje, segundo me disseram, nem parece que sou lésbica). Depois fiquei triste porque percebi que essa Summit, palavra que não sei bem o que significa, acho que é cimeira, é demasiado cara para o meu bolso. Mas continuo a gostar (de alma!) de geografia e coisas relacionadas, e também fotografia e de contar histórias (e de histórias contadas) e de televisão (séries) e de cinema. Tudo junto então é o paraíso e é algo que quero seguir profissionalmente, embora seja atormentada pelo facto de nunca ter podido seguir estudos relacionados com isso. O que me vale é que quando tenho a cabeça livre das nuvens negras lá consigo encontrar maneiras de fazer isto e aquilo e de o fazer bem. Lá vou encontrando caminhos, é uma viagem que não permito que me neguem só porque não tenho diplomas (elitistas - mas isso é outro assunto). 

 

Nasci no final de Outubro portanto, como uma boa representação do meu signo, tenho opiniões fortes. A expressão quem cala consente não me assiste bem, aliás, não me assiste de todo, portanto toda a minha vida tem sido uma batalha atrás de outra com o sistema e com algumas pessoas que o sustentam.

Mas no que toca à escrita sou mais comedida. Não escrevo nem partilho tudo embora o que escreva seja, normalmente, feito na hora. E normalmente só o que é mau e miserável (ao contrário da maioria das vidas felizes nas redes sociais - e não é um julgamento, de todo, compreendo que seja mais fácil partilhar apenas coisas boas do que algumas más sem levar com alguma pessoa idiota em cima). Mas também tenho coisas boas que me acontecem na vida. Nunca tive muitas e, talvez por isso, seja difícil lidar com elas quando acontecem. Mas lá vão acontecendo. Boas e/ou engraçadas, como aquela vez que dei papel higiénico ao Coulson de Agents of Shield ou como no outro dia o vento levou-me o saco do lixo e eu escorreguei e bati com o focinho no caixote ou uma vez que me meti numa discoteca e ganhei uma coroa ao dançar a Single Ladies da Beyoncé em cima do palco. Uma data delas.

Sou divertida e engraçada, uma totó, sou idiota mas sem ser estúpida - embora não partilhe isso por aqui. Ou não tenha partilhado até agora. Ou talvez partilhe as histórias mas o tom humorístico não me saia naturalmente na escrita e está tudo bem, não ambiciono escrever textos super engraçados, já há gente fantástica que o faça por aí e com quem me rio quase diariamente. Sei que consigo manter as conversas mais interessantes, inteligentes e fora da caixa que possam ter com alguém - modéstia à parte - ainda que não as tenha tido aqui.

 

A verdade é que estou a tentar perceber ainda qual é a decoração e a disposição desta casa. O que sei é que não quero que seja um cemitério, cheio de ossos e fantasmas e terra fria. Não os vou negar mas também não me vou alimentar deles apenas. Há coisas boas em mim, algumas eu sei quais são e as outras ainda estou a tentar perceber. E há coisas boas que me acontecem e quero e preciso de as reconhecer. Continuo a ser uma pessoa nascida no final de Outubro mas acho que não faz mal partilhar um pouco mais de mim do que o habitual. Se é para ser totalmente reservada mais valia não ter criado este blog. Mas criei e foi uma das melhores coisas que alguma vez fiz. 

La vita pensata

Um dia destes meti-me num autocarro e fui para Coimbra. Vomitei tanta coisa da alma nas últimas semanas que precisava de apanhar ar. Então fui para Coimbra e fui alimentar-me de outras relações que não a perspectiva solitária com a qual sempre me alimentei. Se calhar não importa se há amizades ou não - e o que é mesmo uma amizade? Não sei, estou a aprender. Mas o importante é que há algumas pessoas que me importam na minha vida. Longe, mas há, e poucas - mas há.

Há-de ser a vida uma tarde de sol a beber finos (porque, passo a citar, "Imperial é uma marca, carago!") ou um passeio de carro pelo meio das serras e um sol a pôr-se, rodeado de cabritinhas, em Penacova. E há-de ser a vida também subidas e descidas por ruas onde caminho sozinha e um sofá à minha espera com um mimo de boas noites depois desses vagueios. Há-de ser tudo se não fechar portas e se não me fechar atrás de portas. Há-de ser tudo se continuar sem forçar fechaduras também. Há-de ser descanso para os meus receios. A vida há-de ser aquela que vivi a semana passada em Coimbra. Devo-me isso mesmo, devo-me vida cá fora de tanta vida que tenho dentro de mim. 

 

 

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