Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Samantha Em Chamas

Fogos e desafogos de uma lésbica passada dos cornos e meio anti-social

Apontamentos datados

  • Faz hoje cinco meses que comecei a ter consultas de psicoterapia; 
  • Dia 17 vou iniciar uma formação de vigilante;
  • Dia 18 faz um mês que me mudei para Almada;
  • Dia 30 faço 27 anos;

 

A vontade de me debruçar em muitas palavras sobre cada um destes assunto é equivalente à preguiça de as escrever, infelizmente. Fica para depois.

 

Está um dia bom. Os ares do Outono finalmente mostram-se e trazem uma sensação de casa e consequente aconchego consigo. A roupa, quase seca ontem à noite, está toda encharcada esta manhã e eu não me importo. Vou beber chá, ouvir AC/DC ao vivo no spotify (aka o concerto "Live at River Plate"), ler capítulos do livro "A Mulher Silenciosa" e ver o último filme que me falta de Star Trek (a equipa original, ou seja "Star Trek VI: The Undiscovered Country"). Talvez escrever uns postais, quem sabe. Responder a alguns e-mails e comentários em atraso. Pôr tudo em ordem.

 

Apontamento extra:

  • Em data ou datas ainda por definir mas que se mostram possíveis perantes os progressos dos últimos cinco meses, vou encontrar algum constante gosto na e pela vida. Hei-de lá chegar. 

Alma da Vida

Ter mudado de cidade tem sido bom mas não tem sido fácil. 

 

Hoje alguém publicou uma foto daqueles pacotes de açúcar que trazem frases escritas. A deste pacote era "Barriga vazia não conhece alegria" e pensei "e nem imaginas o quanto..." enquanto pensava na pouca comida que me sobra. Trouxe alguma de Setúbal, não muita, e só durou até agora porque tenho andado a racionar. No outro dia, por exemplo, tinha uma espetada com 4 pedaços de carne e tirei dois para esse jantar e guardei os outros dois para a refeição principal do dia seguinte. Não é incomum os meus jantares serem uma batata cozida e uma cenoura.

 

Não ando a comer bem nem com gosto e embora, no que toca aos pesos das alma, ande bem, começo a sentir-me menos bem. Embora já não ande debaixo da nuvem negra que senti durante os últimos tempos, a verdade é que volta e meia sinto-me triste e, algo que já não me acontecia há algum tempo, zangada.

No outro dia fui comprar fruta ao Pingo Doce e tinha à minha frente dois pedaços de melancia, um a 40 cêntimos e outro a 45 cêntimos, e entre baixar e pegar e voltar atrás e trazer o mais barato que me parecia pior (como se veio a confirmar, o que originou outro surto de zanga), perdi os meus óculos de sol. Eu não tenho muitas coisas e, de facto, não sou uma pessoa materialista (desfaço-me sempre do que não me convém), mas estes óculos foram me dados por alguém importante para mim que me tem estado a ajudar a orientar coisas que preciso (roupas, por exemplo) e tinham muito valor sentimental. Têm. Por sorte alguém os encontrou e deixou-os com o segurança da loja e fui buscá-los no dia seguinte. Senti-me muito grata mas não sem antes ter discutido com o universo porque estou cansada de viver à rasca e de perder o pouco que tenho e que me importa por misérias e poupanças de 5 cêntimos em tudo na vida.

 

Não sou idiota e ingénua ao ponto de pensar que posso viver do ar. Já tinha noção disso quando tomei a decisão de vir para aqui e disso não me arrependo e considero que foi a melhor coisa que fiz em anos. Mas, porra, é difícil. Muito difícil. Raciono comida em casa e não consigo ter pequenos prazeres fora dela, como tomar uma cerveja naquele bar onde estava a passar metal pelo qual passei na outra noite, e penso que é apenas por agora e pelos próximos 3 meses mas a minha fome de vida é urgente, é agora, dentro de 29 dias faço 27 anos e os últimos 26 anos foram passados de forma precária.

E então penso se vale a pena pagar o resto da formação de um trabalho que quero fazer e que me vai dar um salário melhor por menos horas e permitir que possa dedicar tempo a mim e à minha criatividade à custa de 3 meses a pouca comida e, nalguns dias, sem comida alguma, ou se me meto nalguns part-times da treta de trabalhos precários que me dão cabo da minha cabeça só para ter dinheiro para comer e pagar o quarto na excelente casa onde me encontro (não quero mesmo sair daqui!). Por causa dos horários, não dá para conjugar os dois.

Vou enviando currículos, por vezes cheia de garra e orgulhosa por me fazer à vida e por vezes desanimada porque toda a minha vida tem sido lutar e lutar e parece que a vida não me dá mais. São decisões que terei de tomar nos próximos dias.

 

Mesmo nos melhores momentos há momentos assim. 

Quero comer uma sopa em condições, um hambúrguer com sabor, se calhar um doce de vez em quando.

Uma cerveja ao final de um dia enquanto escuto uma música ou olho o Tejo do lado de cá por entre os capítulos de um livro.

Quero aproveitar com gosto esta cidade que me vai devolvendo a Alma, saborear a alma da vida que Almada me quer dar e cuja vida tem tido alguma dificuldade em aceitar sem criar mil e duzentos e vinte e um obstáculos.

Ter uma vida em Almada. Alma da Vida. 

 

Ter vindo viver para Almada tem sido bom mas não tem sido fácil.

10 coisas que fiz no verão passado (sim, este de 2018)

Podia responsabilizar a dESarrumada por me desafiar a fazer isto quando o verão (finalmente!) estava a terminar, mas vou agradecer e aproveitar para regressar aqui ao blog e contar-vos onde e por que motivo andei desaparecida! Ninguém quer saber, Samantha...

 

1 - Quase morri. Sei que muita gente vai entrar em estado de depressão sazonal a partir dos próximos tempos, mas esse fenómeno acontece-me durante o verão. É, para mim, a pior altura do ano, é grave e as tendências para pôr termo à vida são muito fortes, especialmente com montes de planetas retrógrados (vá, a piada astrológica, mas eu guio-me por isto!), mas sobrevivi e os próximos pontos são mais positivos!

 

2 - Mudei de cidade. Coisa tipo à filme, logo no primeiro dia um alívio descomunal onde várias portas se abriram. Foi a semana passada, ando a racionar a comida (se alguém passar por Almada e me quiser deixar alguma comida, agradeço!) para me aguentar no próximo par de meses enquanto ando na formação e/ou encontro trabalho, mas de resto estou finalmente a ficar bem. Mas antes...

 

3 - regressei à Irlanda, onde planeava fazer uma viagem de (pelo menos) um mês e usar a plataforma workaway para estender a viagem, conhecer pessoas e aprender novas coisas. Enfim, para acabar com esta nuvem negra que me assola constantemente. As coisas não correram bem. Fiquei cerca de 10 dias, mas conheci um sítio espectacular digno de outro mundo embora seja neste e ainda, no meu pior momento, pude finalmente contar com alguém embora à distância de um telefonema mas o suficiente para sentir que há quem me queira bem e que posso desenvolver relacionamentos bonitos e saudáveis. E isto só foi possível porque...

 

4 - neste verão também desenvolvi uma amizade bonita e descomplexada... com a minha psicóloga! Acho que estava destinado. A nossa (pronome carinhoso, não possessivo) Joana vai ao médico e encontra o Pedro, eu vou à psicóloga e (re)encontro a C., portanto moral da história: cuidar da saúde, física e mental, é importante e dá resultados positivos!

 

5 - Voltei ao postcrossing. Que saudades de escrever, enviar e receber postais e cartas de todas as partes do mundo, de pessoas tão diferentes e sempre com alguma história para contar! (Se quiserem que vos envie um postal, podem ver aqui como o fazer)

 

6 - Papei Star Trek à grande. Adoro Star Trek e toda a utopia que representa. Vi a série original dos anos 60, vi a série animada que veio a seguir e agora estou nos filmes com o elenco original. Ainda assim nada me bate a primeira que vi o ano passado: Star Trek: Voyager (dos anos 90)!

 

7 - Fui burlada pela escola de condução. Eu e uma data de pessoas. Adoro, até sou ricaça para andar a perder 350 euros assim... devem ter visto nas notícias (foi assim que eu soube, estava na Irlanda na altura). 

 

8 - Concretizei o sonho de ter uma bicicleta! Aliás, concretizaram. A antes-psicóloga-agora-amiga deu-me um bicicleta que tinha lá para casa inutilizada após eu ter dito que sempre quis ter uma mas a vida nunca me deu para isso. Tenho andado no céu-que-é-o-chão com ela nos últimos tempos!

 

9 - Fui para o tinder para tentar conhecer moças, é que caso não tenham reparado estou em chamas, mas não resultou. Não faz parte do meu feitio. O que me vale é que gosto de gatos e a possibilidade futura de acabar a viver com eles aos 70 anos não me desagrada.

 

10 - Fiz uma aula de Kung Fu! Há anos que queria experimentar e, nesta nova cidade, isso foi possível. Infelizmente não vou continuar por agora por questões monetárias mas hei-de lá voltar! Estou toda desengonçada mas, segundo o professor, as minhas articulações são mesmo boas, fortes e resistentes. O senhor estava fascinado. Se calhar uma das coisas que devia fazer este outono é voltar ao tinder e dizer a alguém "ó moça, olha, ando a reestruturar a minha vida e não tenho dinheiro nem carro nem um trabalho de jeito neste momento mas as minhas articulações são mesmo boas e aprovadas por um mestre de Kung Fu!". Acham que resulta? Incorporar o meu Jackie Chan interior para dar uma tareia à solidão... 

 

Não há regras no desafio porque ele expirou e porque o próprio verão foi, em si, um grande desafio. Mas a primeira coisa que fiz este Outono, a estação que sempre me foi casa, foi sentir-me grata por ter tido a oportunidade de o ultrapassar. Pressinto coisas boas, finalmente. Não quero agourar e espero não estar errada, mas é que mereço mesmo. E ando com uma fome de vida que não sentia há anos... olá de novo!

40 horas e 1 vida

Perguntou-me, desorientado, por que raios não queria eu fazer 40 horas semanais. 

"Não precisas de mais dinheiro?", perguntou-me. Respondi-lhe que não, que neste momento estes trocos chegavam-me. "Deves estar de bem com a vida", disse-me com desdém.

 

- Não estou, pelo contrário. Por isso é que não é de mais dinheiro que eu preciso.

- Então é de quê?

- É de tempo. 

No quiero escaparates: quiero la vida entera.

Na casualidade da vida nada em mim é por acaso. Mais importante: ninguém comigo o é por acaso. Entre armaduras e recrutamentos, tenho mais dedos numa mão do que pessoas a quem dei permissão para passarem o muro. 

Não é justo que me resuma às circunstâncias para justificar essas entradas. Se circunstancialmente me sinto resumida, sinopse de uma alma, um par de frases sobre o meu coração, então recuso a minha plenitude. Se sou a personificação da demasia, então que o seja - mas eu plena é que não me recuso mais.

Por mais solitário que seja, sei tanto indicar a entrada quanto a saída.

E prefiro ser sozinha do que resumida. 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

ANTES QUE SE QUEIMEM

Liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de ofensa, portanto comentários ofensivos não serão aprovados. Discordar é válido, palavras agressivas dirigidas a mim ou outras pessoas não. As fotos e os textos neste blog são normalmente da minha autoria e, no caso de não serem, avisarei no post respectivo.

Registo de Fogos Postos

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Blogs de Portugal